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Artigo I – Arteterapia: Instrumento de transformação e autoconhecimento do potencial criativo

arterapia

Resumo: O presente trabalho tem o propósito de relacionar a Arteterapia como possibilidade de “transformação” do SER a partir do autoconhecimento do potencial criativo, levando o sujeito a ser autor de sua trajetória. O trabalho foi desenvolvido com os profissionais da área administrativa de uma Instituição de Ensino Superior, no município de Lagarto, em Sergipe, com o objetivo de oferecer um espaço reflexivo em que os participantes tivessem a oportunidade de aprender a energizar-se e a melhorar a baixa auto estima aprendendo a lidar com sua essência desenvolvendo seus potenciais de maneira natural e equilibrada, promovendo o seu desenvolvimento pessoal e profissional através das qualidades dos quatro arquétipos, utilizando os recursos da arteterapia em oficinas criativas.

Palavras-chave: Arteterapia, Potencial criativo, Autoconhecimento e Transformação.

Abstract: This paper aims to relate to Art Therapy as a possibility of “transformation” of the SER from the creative potential of the self, leading the subject to be author of his career. The study was conducted with the administrative workers of a higher education institution in the town of Lagarto, Sergipe, with the goal of providing a reflective space in which participants had the opportunity to learn how to energize and improve the low self-esteem, learning to deal with essentially developing their potential in a natural and balanced, promoting their personal and professional development through the qualities of the four archetypes, using the resources of creative art therapy workshops.

Keywords: Art Therapy, Creative Potential, Self and Transformation.

Introdução

A sociedade moderna sofreu uma transformação radical, caracterizando-se como uma “sociedade globalizada”, impulsionada pela agilidade da informação e conseqüente intensificação das comunicações em nível mundial. Neste contexto as instituições de ensino superior expandiram por toda a parte do país, e sinaliza também para a mudança nas relações e papéis exercidos pelos diferentes profissionais que nela atuam. Estes profissionais são desafiados a adquirir habilidades e atitudes novas, a buscar estratégias alternativas, a garantir a posse de condições que dêem sustentação a instituição, frente às constantes mudanças. É preciso sobreviver nesse cotidiano acadêmico ágil, complexo, com metas a serem alcançadas, prazos a cumprir, capacitar-se continuamente, desempenhar várias funções, ser proativo independente da função que exerça.

Nas instituições de ensino, é fundamental o exercício da criatividade, como elemento de propulsão no processo educativo. A ação do profissional nas organizações, de uma maneira geral, mas especialmente do profissional ligado à educação superior, deve ser balizada por experiências criativas. As experiências estimuladoras da criatividade pressupõem o desenvolvimento das relações e das descobertas pessoais, uma vez que a criatividade existe na relação do indivíduo e seu meio.

As atitudes criativas levam à autoconfiança, pelo estímulo ao desenvolvimento de aptidões e conhecimento das características e limitações pessoais. O ser criativo é aquele que consegue fazer associações de idéias, derivando daí, diversidade de respostas a uma situação estimuladora.

A arte é a linguagem natural da humanidade e representa um caminho de conhecimento da realidade humana (Ostrower, 1998, p. 25-26). Sendo assim, ela se faz presente, juntamente com a ciência, desde as primeiras manifestações humanas, pois, ao percorrermos a história, veremos, ou melhor, perceberemos que todos somos criadores, tendo esse poder gerador dentro de nós, pronto para ser acessado e, assim, fecundar nosso tempo segundo as nossas próprias potencialidades criativas.

Ao rabiscar, desenhar, pintar, recortar, modelar, colar, etc., a pessoa pode expressar, comunicar e atribuir sentido a sensações, sentimentos, pensamentos e à realidade. A arte indica aos indivíduos as possibilidades de fluição, transformação, construção e criação.

Fischer (2002) afirma ser a arte necessária, à medida que a vida do homem se torna mais complexa e mecanizada, mais dividida em interesses e classes, esquecida do espírito coletivo. Acrescenta que a função da arte é refundir esse homem, torná-lo novo e são (p. 8), concluindo, que a arte é o meio indispensável para a união do indivíduo como o todo (p. 13).

Não existe apenas uma definição sobre o que é arte. Sabemos que a idéia de arte é construída socialmente, com base em referências históricas, através de teorias e outras referências sobre a formação escolar e os contextos socioculturais.

Somamos a estas reflexões as contribuições de Pareyson (1997) ao entender a arte como fazer, como conhecer ou como exprimir. A arte, enquanto fazer, não pode ser vista somente no sentido de executar, pois, várias atividades humanas têm seu lado executivo e de realização. Assim, não basta o fazer para se definir a arte. Faz-se preciso entendê-la também como invenção. “Ela é um tal fazer que, enquanto faz, inventa o por fazer e o modo de fazer” (p. 21-22), sendo uma atividade que, de forma simultânea e inseparável, articula execução e invenção.

Buscamos ressonâncias com Ostrower (1998), artista e educadora, que, ao dedicar os seus estudos teóricos e práticos a respeito da criatividade e processos de criação, admite que todos os seres nascem com potencialidades sensíveis e nos convida a pensar que:

A capacidade de criar formas expressivas contém um forte componente afetivo. Para criar, é preciso, dar-se de corpo e alma, integrar a matéria em questão, identificar-se com ela a fim de poder sondar as possibilidades de configurá-la em desdobramentos formais. (p.224)

Para a autora a arte é uma necessidade espiritual do ser humano, tendo como prova disso o fato irrefutável de todas as culturas na história da humanidade, desde os tempos mais longínquos até a atualidade, terem criado obras de arte em pintura, em escultura, em música, em dança como forma de expressão da essencial realidade de seu viver.

As possibilidades que o ser humano tem diante de si para exercitar sua expressão criativa são inúmeras. Mas, ao longo do tempo tem se dado muito privilégio à mente, mas sabemos que trabalhar com as mãos, com o corpo, com a voz, assim como saber ouvir, tem se tornado equilibrador, principalmente para pessoas que se encontram presas em e por uma sociedade tão ligada a mente e, paralelamente, tão superficial.

Com a intenção de proporcionar aos profissionais da área administrativa de uma Instituição de Ensino Superior, um espaço agradável utilizando os recursos da Arteterapia como caminho para o autoconhecimento, o contato e descoberta do seu potencial criativo, focalizando o desenvolvimento pessoal e profissional é que concebemos e desenvolvemos o projeto.

O objetivo do trabalho foi oferecer um espaço reflexivo em que os participantes tivessem a oportunidade de aprender a energizar-se e melhorar a baixa auto estima aprendendo a lidar com sua essência desenvolvendo seus potenciais de maneira natural e equilibrada, promovendo o seu desenvolvimento pessoal e profissional através das qualidades dos quatro arquétipos, utilizando os recursos da arteterapia em oficinas criativas.

Desenvolvimento

Faremos um breve relato da experiência vivenciada pelos 16 (dezesseis) profissionais da área administrativa de uma Instituição de Ensino Superior, no município de Lagarto, por meio da oficina de criação que designamos: “Espaços de desenvolvimento e auto conhecimento do seu potencial”.

Para tanto, foram realizadas as oficinas criativas de março a setembro de 2010, através de 6 (seis) sessões.

Os encontros foram mensais, sendo 02 (duas) horas a duração de cada um. Os temas propostos nos encontros foram: Quem sou eu? (percepção de si mesmo) Eu e o meu trabalho; A visão sistêmica e ética na transformação das organizações; A Cooperação criativa em tempos de mudança; O caminho quádruplo na construção de lideranças criativas e de caráter (Como o Guerreiro, o Curador, O Visionário e o Mestre se revela e as práticas essenciais para o desenvolvimento de cada um dos arquétipos na sua vida pessoal e profissional).

Cada sessão foi preparada de forma minuciosa e a elaboração das oficinas desenvolvidas nos encontros era detalhada de forma a contemplar todas as etapas necessárias e indispensáveis numa oficina criativa.

Primeiro a sensibilização onde o importante são os sentimentos e descobertas evocados no íntimo de cada ser participante. Após a sensibilização vem a expressão livre, em que o indivíduo através de materiais artísticos como pintura, tinta, desenho, materiais de sucatas, etc. expressam livremente o que vivenciaram anteriormente. Chega, então, o momento da elaboração da expressão, onde acontece o aprimoramento da linguagem escolhida pelo participante. Em seguida a transposição de linguagem onde o sujeito transpõe de forma oral ou escrita o que vivenciou. E a avaliação onde ocorre a conscientização e a percepção crítica da experiência vivida. É interessante e imprescindível que possa ser feito algum tipo de fechamento sobre o trabalho realizado ao final de cada encontro.

As seis oficinas foram planejadas buscando oportunizar aos participantes a entrar em contato com o seu potencial criativo, encontrando e ou reencontrando o seu caminho próprio, resgatando o sentido originário da palavra saber, que significa saborear, mediado por atividades expressivas, em interlocução com diferentes abordagens (corporal, cênica, plástica, poética, musical).

Assim, todos poderiam vivenciar de seu jeito, consciente e sensivelmente, a sua complexidade, além da possibilidade de aprender a energizar-se e melhorar a baixa auto estima aprendendo a lidar com sua essência desenvolvendo seus potenciais de maneira natural e equilibrada, promovendo o seu desenvolvimento pessoal e profissional.

Segundo Fayga Ostrower (1998) “Na experiência, ninguém impõe nada a ninguém; enriquecemos porque crescemos espiritualmente e, no que crescemos, ganhamos maior liberdade no viver”.
Nas sessões foram utilizadas práticas expressivas e artísticas, trabalhos de corpo movimento, danças, cantos, pinturas e colagens, trabalhos individuais e em grupo na construção de dinâmicas interativas.

O ambiente o qual acontecia as oficinas foi cuidado e preparado para acolher os participantes, para a realização de diálogos, para a tomada da palavra respeitando a escolha de cada um quanto ao material a ser utilizado. A cada encontro buscávamos criar surpresas que despertassem a curiosidade e a imaginação.

As expressões artísticas criativas tiveram como pano de fundo a própria vida pessoal e profissional dos participantes. As experiências vividas serviram como fonte de inspiração. As imagens que representaram através das várias linguagens artísticas possuíam grande conteúdo expressivo.

Assim os processos criativos emergem com alegria e simplicidade. Por vezes parece que as oficinas criativas são construídas a partir de um nível de elaboração imensa. Mas a verdade é que, ao desencandear uma proposta, visualizamos o objetivo final e, de forma intuitivamente sábia as etapas se articulam e constituem um processo livre de “amarras” com o passado, e portanto, conectados no momento presente.

Sabemos que a arte é um elemento muito importante na vida de cada pessoa e que o profissional da área administrativa, de modo especial, pode munir-se, através da arte, de uma riqueza inestimável de recursos que auxiliem sua tarefa diária, principalmente a partir do momento em que se conscientize de que pode e é interessante que trabalhe, também, seu potencial criativo, reestruturando a concepção de que cada um ser possui um saber, que não se restringe ao cognitivo, ou ao lógico-matemático, mas abarca todos os tipos de inteligência e lhe possibilita a busca de diferentes maneiras de transmitir a mesma mensagem e realizar de diferentes maneiras uma atividade.

Trata-se de pesquisa qualitativa, pautada em metodologia construtivista, sob a forma de relato de experiência.

A base de todo trabalho desenvolvido em ateliê Arteterapeutico, foi Oficinas Criativas, sistematizadas por Allessandrini (1996) visam integrar expressão verbal e não verbal, com os processos de transformação no desenvolvimento humano, bem como, com a utilização de dinâmicas de grupo, vivências e atividades de modo a permitir que sentidos e significados venham à tona e assim sejam elaborados permitindo evocar o criativo. A oficina Criativa funciona como instrumento facilitador, pois cada pessoa pode ser convidada a, efetivamente, descobrir e evocar seu projeto pessoal. (ALLESSANDRINI, 2004, p.87.).

O uso dessa metodologia garante uma coerência de ação nas vivências propostas que favorece a estruturação e a organização interna do cliente. É importante ressaltar, que tal metodologia e tal coerência para a organização dos encontros, não é rígida, permitindo uma fluidez e uma inter-relação entre os aspectos encontrados nos níveis, em diferentes âmbitos. Há um ir e vir constante nas ações, e essa ordenação na descrição. Ocorre por uma questão didática frente ao estudo que se apresenta, que não pode ser confundida com passos a serem seguidos de forma rígida, o que aprisionaria tanto o cliente como o arteterapeuta.

Recorremos a observação direta, e para a realização da analise de dados utilizamos como base a metodologia da análise retrodutiva (GARCIA, 2002).

Os instrumentos utilizados para coleta de dados e analise dos resultados foram as observações registradas, as fotografias, os registros das atividades desenvolvidas por meio da utilização de recursos artísticos e expressivos, realizada junto a um grupo de 16 (dezesseis) profissionais da área administrativa da Faculdade, com faixa etária entre 20 a 43 anos, sendo quatro do sexo masculino.

Resultados e Conclusões

As vivências propiciaram encontrar-se consigo mesmo, despertar e o iluminar de “caminhos”, possibilitando que cada participante encontrar saídas simples, pessoais e criativas; confiança no seu potencial e nos resultados da própria experiência, construindo assim o seu caminho na vida pessoal e profissional com mais prazer, responsabilidade, flexibilidade, cooperação, integração, respeito e confiança.

A utilização da Arteterapia dentro das organizações de ensino superior é um caminho a ser trilhado e compartilhado consigo mesmo com o outro e com a organização.

Podemos constatar o poder que a arteterapia tem no processo de transformação e autoconhecimento do potencial criativo. E como o trabalho de atividades expressivas realizadas no contexto institucional pode promover a abertura ao novo, contribuindo para que cada um dos funcionários perceba-se como ser criativo, capaz de desenvolver suas potencialidades de maneira natural e equilibrada, promovendo o seu desenvolvimento pessoal e profissional.

Os recursos artísticos auxiliam no desenvolvimento da criatividade e do potencial pessoal, aprimorando as relações inter-pessoais, resgatando a energia dos quatro arquétipos universais do Guerreiro, do Curador, do Visionário e do Mestre que se lastreiam nas raízes míticas mais profundas da humanidade. Nós podemos ter acesso à sua sabedoria aprendendo a viver esses arquétipos internamente, resgatando a criatividade, a sensibilidade e originalidade mediado pelos recursos da Arteterapia.

O trabalho realizado de março a setembro de 2010 na Instituição de Ensino superior mostraram como a arteterapia pode ser utilizada como interface entre os vários campos do conhecimento, colaborando sobremaneira na formação pessoal e profissional dos funcionários de instituições educacionais, transformando suas ações nos diferentes segmentos, elaborando a comunicação entre as possibilidades e limites próprios da ciência e a expressiva liberdade de criação da arte; fazendo ligações entre anseios gerados pelo mundo atual com o mais remoto passado, enfim promovendo o desenvolvimento do potencial criativo humano através de situações que favoreçam a transformação do ser.

Referências Bibliográficas

1. ALLESSANDRINI, C. D. Oficina Criativa e Psicopedagogia. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1996.
2. ______________. Análise microgenética da oficina criativa: projeto de modelagem em argila. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004, 360p.(Coleção Arteterapia).
3. ARCURI, I. G. (org.). Arteterapia: um novo campo do conhecimento São Paulo: Vector, 2006.
4. ARRIEN, A. O caminho quádruplo. São Paulo: Agora, 1997.
5. BELLO, Susan. Bello. Pintando sua alma. Método de desenvolvimento da personalidade criativa. Rio de Janeiro: Wak, 2003.
6. GARCIA, Rolando. O conhecimento em construção: das formulações de Jean Piaget à teoria de sistemas complexos. Tradução de Valério Campos. Porto Alegre: Artmed, 2002.
7. CHIZZOTTI, Antonio. Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. São Paulo: Cortez, 2000.
8. FISCHER, E. (1959). A necessidade da arte. 7a ed. Trad. de Leandro Konder. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
9. OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Petrópolis: Vozes, 1998.
10. PAREYSON, Luigi. Os problemas da estética. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

Escrito por

Cássia de Fátima da Silva Souza¹ Rita Leolinda C.C. dos Anjos²
¹ASSOCIAÇÃO POTIGUAR DE ARTETERAPIA – ASPOART, cassiaprojec@yahoo.com.br
²ASSOCIAÇÃO POTIGUAR DE ARTETERAPIA – ASPOART, ritaleolinda@yahoo.com.br