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A PSICOLOGIA ANALÍTICA NO ESPAÇO CLINICO DE ARTETERAPIA (TCC – Hanna Celina)

PROFINT – Profissionais Integrados Ltda.

Trabalho de Conclusão de Curso

A PSICOLOGIA ANALÍTICA NO ESPAÇO CLINICO DE ARTETERAPIA

Hanna Celina Barbosa Viveiros

 

“O desenvolvimento da personalidade (…) é uma questão de dizer sim a si mesmo, de se considerar como a mais importante das tarefas, de ser consciente de tudo o que se faz, mantendo-se constantemente diante dos olhos em nossos dúbios aspectos.”

(C.G.Jung)

RESUMO

 

 

Esse artigo pretende mostrar como a Psicologia Analítica  e a Arteterapia se unem dentro do espaço clinico, tornando possível um caminho para o autoconhecimento com leveza, trazendo o lúdico e aprendendo com ele. As expressões do Self  em forma de símbolos, traduzidas em artes,  permitindo um estudo e aprofundamento no Ser.   Serão trazidos alguns relatos de experiências arteterapêuticas na clínica onde  foram vivenciadas descobertas através das artes. A escuta do Ser interior.

Palavras-chave: Psicologia analítica. Arteterapia.  Símbolos.  Inconsciente. Self.

 

 

 

ABSTRACT

 

This article intends to show how Analytical Psychology and Art Therapy unite within clinical space, making possible a way for self-knowledge with lightness, bringing the playful and learning with it. The expressions of the Self in the form of symbols, translated into arts, allowing a study and deepening in the Being. Some reports of arteterapéutical experiences will be brought in the clinic where they were discovered discoveries through the arts. Listening to the inner Self. Keywords: Analytical psychology. Art therapy. Symbols. Unconscious. Self.

 

 

 

 

 

Introdução

O processo artístico leva o homem ao mundo imaginário, onde o inconsciente traz em forma simbólica expressões que com um olhar cuidadoso e permitindo a fala do lado intuitivo, ele vai tornando-se consciente.   Como em um sonho, com enigmas, formas abstratas e símbolos, o Self vai atravessando a barreira do ego e memórias que estão guardadas no inconsciente pessoal (ou seja, de sua própria realidade), ou mesmo do inconsciente coletivo, vão se delineando.  O inconsciente pessoal é onde ficam armazenadas todas as experiências do indivíduo.  Tudo que é vivido e que por algum motivo não é aceito pelo ego, ficam guardados, arquivados.   O inconsciente coletivo, segundo conceito criado por Jung, é a camada mais profunda da psique.  Ele é constituído de traços herdados, contém informações arquetípicas e impessoais, dele que se originam os mitos.  O inconsciente coletivo complementa o pessoal, muitas vezes se manifestando através dos sonhos e poderão ser materializados e compreendidos através de uma expressão artística.

Para Jung (1964) a essência dos símbolos contém os dois lados, racional e irracional, o mundo da percepção externa e o mundo da percepção interna, do inconsciente.  As atividades plásticas e a criatividade, são funções psíquicas inatas do ser humano, que contribuem para a evolução da personalidade, dessa forma a Psicologia Analítica e a Arteterapia se comunicam, um símbolo trazido do inconsciente se materializa através das artes, e a Arteterapia auxilia o indivíduo a lentamente ir ao encontro de si, decifrando-se, percebendo-se sombra e luz.

 

Psicologia Analítica

Jung trouxe com muita propriedade o estudo dos símbolos como forma de autoexpressão e reconhecimento de si. A energia da libido que faz parte de todos os seres, como energia vital (criadora), se direcionada para a arte, tem um grande poder de transformação.  Essa energia vem à tona através das diversas expressões artísticas. Para Jung: “A libido segue sua inclinação até a profundeza do inconsciente e lá vivifica o que até então jazia adormecido.” (JUNG, 2012, p.78).  A energia do ser humano é forte e poderosa, levando à construção ou à destruição, dependendo muito das escolhas que são feitas, do destino que se dá para ela. O mergulho no inconsciente, no lado mais obscuro e sombrio, traz a possibilidade de descobertas e encontro do verdadeiro “Eu”:

[…] Assim como o ego contém atitudes desfavoráveis e destrutivas, a sombra possui algumas boas qualidades – instintos normais e impulsos criadores.  Na verdade, o ego e a sombra, apesar de separados, são tão indissoluvelmente ligados um ao outro quanto o sentimento e o pensamento.  (JUNG ,1964, p.118).

 

Os símbolos na abordagem junguiana, significam a união dos opostos, consciente e inconsciente, luz e sombra.  Os símbolos surgem desse conflito entre o consciente e inconsciente, sendo algo natural de todo Ser.  À união desse opostos Jung chamou de função transcendente, como ele diz:

“A consciência é um processo momentâneo de adaptação, ao passo que o inconsciente contém não só todo material esquecido do passado individual, mas todos os traços funcionais herdados que constituem a estrutura  do espírito humano. E o inconsciente contém todas as combinações  da fantasia que ainda não ultrapassaram  a intensidade liminar e, com o correr do tempo e em circunstâncias favoráveis, entrarão no campo luminoso da consciência.” (JUNG, 2015, p.64).

 

A consciência de um conflito é o chamado para o encontro com o Self, o numinoso que existe em cada Ser. “A energia que emana do Self é tão forte que o encontro com esse arquétipo constitui a experiência mais profunda que o homem pode vivenciar”. (SILVEIRA, 1990, p.149). É um retorno à própria individualidade, ao reconhecimento real do que se é e não apenas do que se parece ser.

Segundo Jung, a psicologia analítica proporcionou uma profunda percepção da importância das influências inconscientes, pois o que ocultamos de nós mesmos se torna nosso próprio inimigo.  Compreender e estar consciente de alguma sombra, é levar luz para ela, desde que, quanto mais ela é rejeitada, mais o conflito permanece, o emocional toma uma proporção sem controle: “Quando um complexo está constelado, a pessoa é ameaçada com a perda de controle sobre suas emoções e, em certa medida, também sobre seu comportamento”. (MURRAY, 2006, p.47). O indivíduo é capaz de atitudes totalmente diferentes da sua personalidade, como traz o Murray, é como se ela fosse “possuída” por uma persona.

 

 

 

 

 

Arteterapia

 

Processo terapêutico que utiliza as várias expressões artísticas como instrumento de reconhecimento do outro, trazendo a arte como expressão do Ser, utilizando a arte com um sentido mais amplo, onde não são exigidos conhecimentos nem técnica, mas a linguagem que melhor possa representar o que o outro está sentido no momento, traduzindo em formas simbólicas o que está no seu inconsciente.  Dessa forma a arte auxilia a materializar o que o verbal ainda não consegue expressar por não ter alcançado ainda o nível da consciência. A arte se torna então um instrumento para compreensão do que se passa no íntimo, para conhecimento de si.

Através de qualquer expressão artística o Ser se revela e, embora tenham obras que tenham sido copiadas e utilizadas técnicas semelhantes, aparentemente sejam iguais, no entanto, há sempre um traço do autor e é esse traço que revela, quem somos, o que queremos e pretendemos naquele momento.   O resultado então torna-se um instrumento oracular, onde está embutido nos detalhes mais sutis, informações trazidas do âmago do Ser.  Para Angela Philippini, ”[…] Arte é entendida como processo expressivo, da forma mais ampla que se puder concebê-lo.”   (2013, p.11)

Concretizando-se, materializando-se o que está no inconsciente, os símbolos ganham formas e transformam-se em um veículo de comunicação entre o inconsciente e consciente, entre o ego e o Self.  A energia desconhecida ou mesmo bloqueada se apresenta e, dessa forma, se permite ser identificada e transformada.  A criação ocorre passo a passo e, a cada nova expressão, um conteúdo pode ser analisado junto com o outro e transformações podem ocorrer, escolhas podem ser realizadas.

A arte permite trazer à tona o sagrado que existe dentro de cada um, desvelando-o, resgatando sua essência. O saber de si tem o poder de autotransformação e mudanças.  Ela traduz o que se passa no mundo interior de quem a criou; conhecendo-se, ele poderá compreender melhor suas angústias, conflitos, sentimentos, afetos e desafetos e quais as direções que quer tomar para transformar-se.

 

 

 

Relatos de duas experiências Arteterapêuticas

 

Foram utilizadas técnicas com colagens, construção de mandalas, pinturas, desenhos, escritas, tecelagem e construção de bonecas com pedaços de pano.

            1) MJ tem 50 anos, onde há 15 anos vem tomando remédios para depressão e esporadicamente, em momentos de crises procurava o psiquiatra, não se permitia começar um processo terapêutico.  Devido ao falecimento repentino de um irmão querido e o retorno do sintoma da depressão se acelerar, através de seus familiares aceitou fazer arteterapia.  O primeiro encontro muito ansiosa, temerosa, foi se acalmando à medida que falava e depois foi solicitado que fizesse uma mandala.  Ela desenhou  com cores muito claras, quase inexistentes,  rosa e azul claros, desenhos de flores, coração e bonecos (palitos), simbolizando a sua família, ao centro pontilhou com tinta dourada.  Esse centro foi que nos permitiu entrar em um diálogo de almas, falar sobre as perdas, as dores, os sofrimentos de anos guardados, os amores familiares, seu papel na família e na vida.

Em cada encontro foi introduzido uma expressão artística diferenciada com a intenção de mobilizar e sentir o que a afastava do seu Ser e o que ela sentia mais dificuldade.  A cada sessão era nítido a sua melhora, as cores tornaram-se mais vibrantes, as mandalas traziam sempre a sua maternidade, bem como a sua fé na sua espiritualidade. Criou autoconfiança, não está mais compulsivamente limpando a casa, dorme tranquila.  Teve sonhos com o irmão que faleceu e, à medida que relatava, juntas íamos descortinando a mensagem que seu Ser lhe enviava e a energia que ia se transformando a cada passo dado.  MJ diz a todos que se sente uma outra pessoa e suas mandalas refletem essa mudança.  “A mandala possui uma eficácia dupla: conservar a ordem psíquica, se ela já existe, restabelecê-la, se desapareceu.  Nesse último caso exerce função estimulante e criadora”. (CHEVALIER, GHEERBRANT, 2007. p.585).  A mandala significa literalmente um círculo, utilizada em muitas culturas  como instrumento de meditação e forma de se comunicar com o seu “Deus interno”, que simboliza a “Alma”, o Self na linguagem junguiana.

MJ encontra-se em uma fase da vida que Jung denominou como metanóia, um momento onde o mais importante na crise é a busca de sua identidade enquanto Ser, responder aos questionamentos: O que estou fazendo aqui? Quem sou eu?  Dessa forma se abriu confiante na terapia, e as artes  utilizadas como instrumento de aprofundamento em si, lhe mostravam sinais que antes não percebia. Em alguns momentos como criança que pede a mão para atravessar a rua, e em outros com a vontade e esperança de se tornar uma pessoa melhor e mais confiante.  Alguns momentos de retorno as tristezas, mas sempre vem a frente a coragem de buscar ajuda.

 

            2) Mn tem 23 anos nunca havia feito terapia, encontrava-se em um momento delicado familiar, como não sabia como lutar com essa dor que sentia, entrou em estado depressivo, um vazio existencial, tédio, não sabia o que fazer de sua vida naquele momento.  Não sabia como se expressar, falar o que sentia, queria ficar só. Começou a sentir dores no corpo, mas que não era nada físico.  Começamos a trabalhar a sua expressão através das artes e todas elas levavam para o desejo de harmonia com os pais, e um verdadeiro encontro com a mãe. “Ela não mostra o que sente, para as pessoas ela está sempre bem, mas no fundo é uma infeliz”, “não se importa comigo” (sic).

Em uma das sessões construiu uma “Abayomis – boneca de pano de origem africana que significa – presente precioso”.  Ela fez uma roupa para boneca toda justa e sensual e, ao olhar parecia uma sereia. Começamos a falar sobre o mito de Iemanjá e ela começou a relatar como sentia medo desse mito, e esse medo a levou desde  pequena a ter medo de entrar no mar, tinha medo que a mãe das águas salgadas a levasse embora para o fundo do mar, o complexo de mostrar seu corpo. Dessa memória veio o sentimento de inferioridade ante a sua mãe, o corpo dela e o seu, a diferença, e como via a sua mãe muito mais bonita que ela.

Jung traduz os complexos como algo inconsciente e uma energia independente, por estar a nível inconsciente: Toda constelação de complexos implica um estado perturbado da consciência […] o complexo é um fator psíquico que, em termos de energia, possui um valor que supera, às vezes, o de nossas intenções conscientes.”  (JUNG, 1984, p.30).

Pessoas que vivenciam experiências de complexo materno negativo sentem-se marcadas, por desprezos ou desmerecimento transmitidos por suas mães. Tais mães inconscientemente ou não, emitem comandos que levam a filha à estima baixa  e ao sentimento de culpa.

Desta forma, fica evidente que o relacionamento mãe e filha deixa marcas profundas na psique da filha, influenciando a forma de relacionamento dela de forma abrangente: com as outras pessoas; com o próprio corpo; com o sentimento de medo; a capacidade de tolerar frustrações; a auto-estima; a maneira de lidar com a responsabilidade; o modo como se relaciona na vida amorosa e entre outras. É necessário destacar que o complexo materno “[…] não é a minha mãe; é um complexo meu. É a maneira pela qual minha psique incorporou a minha mãe” (VON FRANZ, 1995, p.164).

 

O complexo materno, quando está a nível inconsciente, cria uma fixação da filha com a mãe, sendo um empecilho na sua busca de sua realização pessoal, mas é importante perceber que tudo já estava no interior do ser, desencadeando um sintoma a partir da sua ligação materna, vivenciando um complexo materno positivo ou negativo.

 

Considerações finais

            A Psicologia Analítica, por trazer tão profundamente os estudos dos símbolos e mitos, pode auxilia muitas vezes nos processos arteterapêuticos.  Na verdade, para mim não existe um sem o outro.  Quando o inconsciente traz à tona um símbolo ou um mito e ele é expresso através das artes o terapeuta passo a passo vai desvendado junto ao paciente o seu enigma, tornando mais suave todo o processo de mergulho nas suas próprias sombras.

Percebo que esse instrumento, a arte,  é um grande facilitador do processo terapêutico, gerando a confiança.  No ato da criação a energia do inconsciente trabalha de forma tão sutil, que quando fica pronta a obra é uma surpresa para o seu criador do que lhe é revelado. O inconsciente faz isso de forma lúdica e o processo terapêutico se acelera, é como se o ego se desarmasse e o que está inconsciente torna-se consciente.

Em cada depoimento, sentimos a entrega, e juntos, terapeuta e cliente caminhando em busca do que há de mais precioso no ser,  o encontro com o seu Self, o sentido de individuação que leva passo a passo ao encontro do TODO.

 

 

 

 

 

Referências

CHEVALIER, Jean e GHEEBRANT, Alain.  Dicionário de Símbolos. 21ª edição. Rio de Janeiro. Editora José Olympio, 1991.

JUNG, Carl Gustav. Memórias, Sonhos e Reflexões. 3ª edição. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira, 1963.

_____. O Homem e seus Símbolos. 10ª edição. Rio e Janeiro. Editora Nova Fronteira, 1964.

_____, O Desenvolvimento da Personalidade. 11ª edição. Petrópolis. Editora Vozes, 2011.

_____, Psicologia do Inconsciente. 21ª edição. Petrópolis. Editora Vozes, 2012.

_____, Espiritualidade e Transcendência. Petrópolis. Editora Vozes, 2015.

_____, A natureza da psique. Petrópolis. Rio de Janeiro: Vozes. Volume VIII/2, 1984.

PHILIPPINI, Angela. Arteterapia: Métodos, Projetos e Processos.  3ª edição. Rio de Janeiro. WAK Editora, 2013

SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente. 3ª edição. Rio de Janeiro. Tipo Editor Ltda, 1981.

_____, Jung Vida e Obra. 12ª edição. Rio de Janeiro. Editora Paz e Terra S/A, 1990.

STEIN, Murray. Jung o Mapa da Alma. 5ª edição. São Paulo. Editora Cultrix, 2006

VON FRANZ, Marie-Louise. A tipologia de Jung. São Paulo: Cultrix, 1995.