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Artigo II – AS CONTRIBUIÇÕES DE C. G. JUNG PARA A COMPREENSÃO DOS SONHOS

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“Os sonhos são natureza pura; eles nos mostram a verdade natural, sem maquiagem, e por isto se prestam nada mais do que a dar-nos de volta uma atitude que está de acordo com a nossa natureza humana básica, quando nossa consciência se desviou demais de seus fundamentos e chegou a um impasse” (JUNG, 1999, p.78).

Após as pesquisas desenvolvidas sobre sonhos por Freud, foi Carl Gustav Jung (1875-1961) quem mais contribuiu para a análise de sonhos. Tal como Freud, considerava-os como uma ponte entre o consciente e o inconsciente, um meio de interpretar o simbolismo do inconsciente. Assim, para Jung, o sonho é uma auto-representação espontânea, sob forma simbólica, da situação real do inconsciente. Enquanto área de encontro entre a dimensão consciente e inconsciente da psique, o sonho participa de ambas, unindo-as em seus símbolos. Ele enfatiza a importância de se desvendar a dimensão simbólica do ser humano através dos sonhos. Estes, emergem à mente consciente completamente “sem sentido”, sob a forma de imagem, metáfora ou símbolo, numa linguagem intimamente ligada á arte, mas na realidade são confrontos pessoais subjetivos (VON FRANZ, 2007).

Jung discordou de Freud no que se refere aos sonhos como apenas desejos sexuais reprimidos, concluindo que essa interpretação era muito restritiva. Para ele, os sonhos traziam mensagens do inconsciente em relação aos momentos já vividos, mas também do presente e do futuro. Assim, ao contrário de Freud, que dizia que os sonhos escondiam a verdade e era um disfarce para o desejo reprimido (FREUD, 1945), Jung acreditava que o sonho tendia a mostrar a verdade que a consciência ainda não havia percebido. Segundo Nise da Silveira (2000, p. 91) para ele, “o sonho é aquilo que ele é, inteiramente e unicamente aquilo que é; não uma fachada, não é algo pré-arranjado, um disfarce qualquer, mas uma construção completamente realizada”.

No seu entendimento, todas as figuras do sonho são aspectos personificados da personalidade do sonhador, representam fatores autônomos da própria personalidade. Ele não aceitou que o sonho tivesse uma significação diferente da sua apresentação evidente, de modo que começou a estudar a forma e o conteúdo dos sonhos, considerando-os um fenômeno natural e normal, que “não significa outra coisa além do que existe dentro dele”. Segundo o próprio Jung, “a confusão nasce do fato de serem simbólicos os seus conteúdos e, portanto, oferecerem mais de uma explicação. Os símbolos apontam direções diferentes daquelas que percebemos com a nossa mente consciente” (JUNG, 1964, p. 90).

Assim, Jung discordava do método puro da “livre associação” desenvolvido por Freud (1945), no trabalho com os sonhos. Para ele era importante a coleta do contexto subjetivo do sonho através de associações, mas considerava a técnica freudiana da associação livre muito linear, conduzindo em geral aos complexos do sujeito. Assim, propõe que as associações se agrupem em torno da imagem do sonho, permanecendo próximas desta e sempre retornando a ela.

Julgava essencial apreciar o sonho em sua dimensão criativa, a qual decorre do ponto de vista final-construtivo, que revela uma tensão psíquica dirigida a um fim futuro, teleológico, ou a uma significação ainda por aparecer. Este ponto de vista se opõe ao enfoque causal-redutivo freudiano. Segundo ele (JUNG, 1964, p. 38): “As imagens e ideias contidas no sonho não podem ser explicadas apenas em termos de memória; expressam pensamentos novos, que ainda não chegaram ao limiar da consciência”.

O conceito mais marcante da teoria junguiana é a ideia de inconsciente coletivo, que consiste no conjunto de símbolos e arquétipos comuns a quase todos os povos, que estariam gravados numa espécie de “memória coletiva”, presente nos níveis mais profundos de nosso inconsciente. Assim, muitos sonhos apresentam imagens e associações semelhantes aos ritos primitivos e aos mitos. Jung observou que, o que Freud chamou apenas de “resíduos arcaicos” do inconsciente, sem dar muito valor, são elementos psíquicos que sobrevivem na mente humana, a tempos imemoriais, têm significação e uma função valiosa. São associações históricas e primitivas, que estabelecem um elo entre o mundo racional da consciência e o mundo do instinto. Enfim, representam algo muito além da experiência pessoal do sonhador.

Desta forma, ele afirmou que, através dos sonhos, se revelavam as imagens arquetípicas. Então os arquétipos, ou “imagens primordiais”, são definidos por ele como “uma tendência instintiva para formar representações variadas de um motivo, sem perder a sua configuração original” (JUNG, 1964, p. 67). Estas reações e impulsos fundamentam-se num sistema instintivo pré-formado e sempre ativo, característico do homem. “Formas de pensamento, gestos de compreensão universal e inúmeras atitudes seguem um esquema estabelecido, muito antes do ser humano ter desenvolvido uma consciência reflexiva” (Ibidem, p. 76).

Assim, esses “sonhos de arquétipo ou arquetípicos” seriam os mais importantes para Jung, pois sua mensagem e simbologia não correspondiam somente à vida daquele cidadão, mas à humanidade em geral. Para ele, “os arquétipos informes alcançam uma forma, na medida em que os vivenciamos em nossas vidas externas e em nossos sonhos” (ROBERTSON, 1992, p. 50).

Segundo Hall (1987) a atividade das camadas mais profundas da psique é claramente vivenciada em sonhos, que é uma experiência humana universal e pode irromper de forma excessiva também nas crises emocionais agudas, por exemplo. Assim, o sonho pode compensar distorções temporárias na estrutura do ego, dirigindo o indivíduo a um entendimento mais abrangente das suas atitudes e ações, complementando a visão unilateral que o ego tem da realidade. Nos sonhos aparecem imagens ou figuras que personificam complexos, anima/ animus, persona e sombra (positivas ou negativas, pessoais ou coletivas), assim como várias formas e papéis do ego. Mas, também expressam imagens da nossa personalidade global, do centro arquetípico da psique, que Carl Jung denominou de Self. Tentarei descrever estes conceitos junguianos acima citados a seguir, para facilitar a compreensão do leitor.

Os complexos são “os motores da psique, como diferentes núcleos que impulsionam e vitalizam a psique, são os seus centros de energia” (VON FRANZ, 2007, p.38). Temos como exemplo um complexo materno ou paterno, sexual, etc. Para Jung, em geral os complexos são os personagens dos sonhos, eles aparecem de forma personificada, quando estão inibidos pela consciência. Eles são o ponto de partida para nossas fantasias. Para Hall (1994, p. 25), um complexo é

“um grupo de imagens inter-relacionadas que se baseiam num núcleo arquetípico e tendem a apresentar uma tonalidade emocional comum. Qualquer imagem associada a um complexo pode levar a uma liberação de emoções. Por exemplo, uma mulher com um complexo paterno negativo, pode descobrir que esses sentimentos negativos irrompem em sua consciência sempre que ela interage com qualquer homem que evoque uma imagem associada com o complexo”.

Segundo Hall (1987), a maior parte do uso clínico dos sonhos tem a finalidade de expressar complexos. Estes devem ser identificados através de técnicas expressivas e imaginativas que facilitem a sua interpretação, pois “o trabalho com sonhos é talvez a abordagem mais direta e natural para se alterar complexos” (HALL, 1987, p. 36). No entanto, o terapeuta deve estar consciente de que nem tudo está ao alcance do ego.

A sombra por sua vez, é o arquétipo que se opõe à persona e aparece muito em sonhos. Aparece representada por pessoas do mesmo sexo do sonhador, que apresentam qualidades e atitudes inferiores ou opostas à sua persona, ou seja, àquilo que ele aceita como próprio. “Pode personificar nosso lado inferior, nosso inimigo, mas também pode ser apenas nosso outro lado” (VON FRANZ, 2007, p. 39). Os traços obscuros do nosso caráter possuem uma natureza emocional, e certa autonomia, portanto, para aceitá-la precisamos fazer um esforço moral. A sombra costuma ser vista com mais frequência projetada em outra pessoa, dissociada do ego. Pode-se admirar esta pessoa (projeção da sombra positiva) ou detestá-la (projeção da sombra negativa). Segundo Jung (2000, p. 8), “é bem possível que o indivíduo reconheça o aspecto relativamente mau de sua natureza, mas defrontar-se com o absolutamente mal representa uma experiência ao mesmo tempo rara e perturbadora”.

A anima é o lado feminino inconsciente do homem e o animus o masculino inconsciente da mulher. São representados nos sonhos dos homens e das mulheres por figuras femininas e masculinas, respectivamente. Como nos interessa neste caso o desenvolvimento do feminino, o animus pode aparecer em formas ou representações positiva (como masculinidade viril, força, coragem, planejamento, intelecto e espiritualidade), ou negativa (um estuprador, violento, mordaz, enganador, um demônio, etc.). Segundo Hall (1994, p. 28), quando “a anima/animus funciona de maneira positiva, no interior da personalidade ela aparece em sonhos e fantasias como uma espécie de guia da alma, um psicopompo, que leva o pequeno eu na direção do Si-mesmo (Self)”.

Para Jung (2000, p. 12), o animus, por exemplo, designa a razão ou o espírito, corresponde ao Logus paterno, confere ás mulheres um caráter meditativo, capacidade de reflexão e conhecimento, concepções filosóficas e religiosas. Uma forte ação sugestiva promana deste arquétipo, fascinando a consciência, podendo deixá-la prisioneira.

“Anima e animus se constituem parte de um domínio especial da natureza, que defende sua inviolabilidade com o máximo e obstinação. Por isto é muito mais difícil conscientizar-se das próprias projeções do par anima/animus, do que reconhecer nosso lado sombrio. (…) Por isto, apresenta-se uma dúvida, e esta muito mais profunda, a de saber se não estamos nos intrometendo no domínio próprio da natureza, tornando-nos conscientes de coisas que no fundo, seria melhor deixá-las adormecidas”(Ibidem, p. 15).

Ainda assim, segundo Jung há certo número de pessoas que pode compreender, no plano moral e intelectual, as manifestações da anima/animus sem muita dificuldade. Muitos destes conteúdos são projetados em figuras de sexo oposto, mas muitos afloram em sonhos ou são acessados através da psicoterapia, em exercícios de imaginação ativa. Todavia, a autonomia do inconsciente coletivo vai se expressar nas figuras de anima e animus.

A integração da sombra, do inconsciente pessoal, é a primeira etapa do processo de psicoterapia analítica, etapa necessária ao conhecimento das representações da anima/animus. O elemento seguinte a ser acessado pela consciência é, para o homem, o arquétipo do velho sábio e, para a mulher da mãe ctônica. Somente depois e através destes o indivíduo pode ter, enfim, acesso às manifestações do seu Self (Ibidem).

O Self, por sua vez, é o arquétipo central da psique, o centro do qual provém a ordem, o equilíbrio e a organização. Para Jung, os sonhos são uma função do Self, eles refletem sua influência e servem para compensar o estado consciente da pessoa, ou seja, em geral questionam a nossa auto-imagem, enfatiza o que ignoramos pelas atitudes conscientes, exercem uma função de equilíbrio. Imagens do Self podem aparecer nos sonhos de inúmeras formas, como por exemplo, sob a forma de mandalas, uma cidade interior, uma praça redonda, uma flor, um círculo, um quadrado ou retângulo, uma criança, uma deusa, etc. No dizer de Jung (1991, p. 16):

“O Si-Mesmo aparece empiricamente em sonhos, mitos e contos de fadas, na figura de ‘personalidades superiores’ como reis, heróis, profetas, salvadores, etc., ou na figura de símbolos de totalidade, como o círculo, o quadrilátero, a cruz…Enquanto representa uma união de opostos, também pode manifestar-se como dualidade unificadora, como por exemplo, no Tao, onde concorrem o yang e o yin. (…) O Si-Mesmo aparece como um jogo de luz e sombra, ainda que seja entendido como totalidade e, por isso, como unidade em que se unem os opostos.
Segundo Von Franz (1997, p. 117), o símbolo do mandala aponta para “uma unidade psíquica interior última, para o centro, para o Self. Para Jung o alvo do desenvolvimento psíquico é o Self e o mandala é o centro. É o expoente de todos os caminhos. É o caminho para a individuação.”
Para Jung (2000, p. 22), “o Si-Mesmo é representado na psique por uma imagem divina (imago Dei)”[1] e a assimilação do eu pelo Self pode ser considerada uma catástrofe psíquica. Pela natureza arcaica do inconsciente coletivo, se o eu fica sob o seu controle, pode sofrer uma desadaptação ou perturbação emocional mais ou menos grave. Corre-se o risco de inflação do ego, ou seja, vai sofrer de presunção, devendo para manter o equilíbrio, desenvolver a modéstia e o foco na realidade. Saber conviver de maneira correta com as manifestações numinosas do Self é algo muito difícil, que vai exigir do eu a humildade. Conceder a autoridade interna do Self como “vontade de Deus”, obedecer às vozes do Self como manifestações divinas, é algo que pode promover a inflação do eu e deve ser combatido com a razão. Segundo Jung,

“Pode ser mais vantajoso e psicologicamente mais correto considerar como a vontade de Deus, pois assim nos colocamos em consonância com o hábito da vida psíquica ancestral, facilitando a nossa sobrevivência. Mas, é necessário saber conviver com estes dados absolutos que nos provém do Self, porque a vontade do eu só consegue dominá-los parcialmente” (Ibidem, p. 25).

Jung afirmava que a verdade e a realidade que o consciente reluta em aceitar, ou não aceita de todo, representam a situação interna do indivíduo e são retratadas nos seus sonhos. Dessa forma, o sonho é uma expressão de um processo psíquico inconsciente, totalmente alheio à nossa vontade e, logo, longe do controle da consciência. Daí, o sonho não pode expressar um conteúdo muito definido. Revelando a importância da análise dos sonhos para a psicoterapia, Jung afirma que esta análise forma um registro das etapas do processo de individuação, processo este responsável pelo crescimento do indivíduo em busca contínua e eterna do seu verdadeiro Self.

Para ele, o sonho reflete em síntese a vida do sonhador, em suas relações com o meio, assim como na sua dinâmica interna. Representam os progressos e as regressões, as possibilidades e as impossibilidades do metabolismo psíquico, seus conflitos e transformações. Ele acrescenta:

“O sonho é o teatro em que o sonhador é, simultaneamente, a cena, o ator, o ponto, o diretor, o autor e o crítico. Esta verdade tão simples é a base deste conceito do significado onírico que designei sob o termo de interpretação no plano do sujeito” (JUNG, apud HUMBERT, 1985, p.29):

Aproveitando que ele usou o teatro como metáfora, partimos do conceito junguiano de que as estruturas do sonho não são diferentes das estruturas do drama. O sonho é um drama constituído de cenas. Assim, ele insiste no ponto de que as figuras, imagens e ações do sonho são elementos próprios da subjetividade do sonhador. E, para ele, o conteúdo manifesto é tão importante quanto o latente. Criticou Freud por não levar em consideração o conteúdo manifesto, por se contentar em usar o sonho apenas como ponto de partida para associações. Pois, como vimos anteriormente, achava que o conteúdo manifesto pode ser considerado por aquilo que ele traz.

A cada elemento do sonho, solicitam-se associações, examina-se de que forma se aplica ao momento atual, ou ao seu passado, etc. Em geral, para além das tramas e peripécias do sonho, ele contém um drama e o seu final contém aspectos que precisam ser conscientizados, pois o sonho visa também corrigir nossas atitudes e nos alertar (VON FRANZ, 1997). Porém, nem todos os sonhos suscitam associações. Os arquetípicos, por exemplo, têm um significado mitológico, recorrendo-se às analogias ou amplificações (da humanidade em geral, da mitologia, da história, do folclore, das religiões, etc.).

[1] Deus é aqui entendido não no sentido cristão, mas no sentido de Daimon, um poder determinante que vem ao encontro do homem, de fora, tal como o poder da Providência e do destino. Segundo Jung, “neste encontro, é ao homem que se reserva a decisão ética. Ele precisa saber a respeito do que decide, e saber também o que está fazendo” ( JUNG, 2000, p. 25).

O trabalho clássico de interpretação na análise junguiana “consiste em deixar andar as associações, até descobrir os fatores latentes e, depois, trazê-los de volta às formas e papéis que assumiram no conteúdo manifesto” (HUMBERT, 1985, p.29). Pois, na visão junguiana, o sonho não é só a realização de desejos arcaicos, mas se insere no presente do sonhador e tem um papel de “compensação”, visto que ele é uma auto-representação espontânea e simbólica da situação atual do inconsciente. Assim, afirma ele: “Duvido que um sonho seja algo diferente do que realmente parece ser. O sonho é sua própria interpretação” (JUNG, 1987, p. 87).

Esta função compensatória do sonho tende a arrancar o psiquismo da repetição, a corrigir a situação pré-existente. Quando se interpreta clinicamente um sonho, diz Jung que é sempre útil o terapeuta se perguntar: – “Quê atitude consciente está sendo compensada pelo sonho?”. Pois, a produção onírica desempenha importantes e vitais funções na economia psíquica, o que já vem sendo confirmado pelos neuro-fisiologistas contemporâneos, os quais têm chegado à conclusão de que não sonhar é mais prejudicial do que não dormir.

Segundo Nise da Silveira (2000, p. 94), Jung foi o primeiro a abrir o caminho no estudo da função compensatória dos sonhos: “No seu conceito, os sonhos funcionam principalmente como reações de defesa, como auto-reguladores de posições conscientes, demasiado unilaterais ou anti-naturais”. Ele ressalta a importância de considerar as convicções filosóficas, religiosas e morais conscientes, para trabalhar com a simbologia do sonho. É aconselhável, na prática, considerar aquilo que o símbolo significa em relação à situação consciente, ou seja, tratar o símbolo como se ele não fosse fixo ou pré-determinado.

Cada elemento do sonho representa um aspecto da psique do sonhador, mas existem os sonhos premonitivos, que refletem uma realidade exterior que está para acontecer, como veremos alguns exemplos deles, posteriormente. Ás vezes ele indica uma projeção, que não se refere á própria pessoa, por isto ele deve ser analisado objetiva e subjetivamente. Muitas vezes, um sonho abrange as duas coisas condensadas numa só imagem. Porém, segundo Von Franz (2007), cerca de 85% dos sonhos são subjetivos e a pergunta que se deve fazer, sempre, é: – “O que em mim faz isto?”. Em vez de tomar o sonho como um aviso contra terceiros.

A abordagem junguiana vê o sonho como uma realidade utilizável também no prognóstico. Afirma que há sonhos que muitas vezes são antecipações e, se forem observados por um enfoque puramente casuísta, podem perder seu verdadeiro sentido. E considera ser importante haver uma compreensão conjunta, dialética, entre terapeuta e paciente, no que diz respeito ao significado de um sonho. Pois, toda interpretação é uma mera hipótese. E esta só adquire uma relativa segurança numa série de sonhos, pois somente em série, conteúdos e motivos são reconhecidos com maior clareza. Para Jung,

“Os sonhos deveriam ser sempre considerados pelo psicoterapeuta como uma novidade, como uma informação sobre condições de natureza desconhecida, a respeito das quais tem tanto a aprender quanto o paciente, ou seja, deveria ele renunciar a todo e qualquer pressuposto teórico e se predispor a descobrir uma teoria do sonho inteiramente nova para cada caso” (JUNG, 1999, p. 18).

O sonho nunca diz o que o sonhador já sabe, aponta-lhe ou indica-lhe pontos cegos, o desconhecido, por isto pode parecer óbvio para os outros e não para o sonhador, sendo necessário ser interpretado com a ajuda de outra pessoa. No simples contar de um sonho pode ocorrer que os significados se revelem. Em geral, não se devem usar dicionários para interpretá-los, pois estes oferecem uma interpretação estática, que pode desviar o rumo certo. O simbolismo tem significados para o sonhador, podendo os dicionários apenas fornecer uma inspiração ao sonhador, no sentido de conhecer as múltiplas possibilidades daquela imagem, ao longo da história, nas religiões, mitologia, etc.

Quando analisado na sua profundidade psíquica, o sonho traz uma sensação de alívio ao sonhador, ele sente que atingiu um alvo, que nos aproximamos ao máximo de seus significados, embora ainda reste algo mais ainda, um mistério desconhecido. Na psicoterapia de base junguiana, seguimos o caminho dos sonhos. Veremos na segunda parte deste livro que tentamos, o máximo que conseguimos, nos aproximarmos de seus significados, mas deixamos “o barco correr”. Não nos preocupamos em enquadrar a cliente em um conceito de normalidade, numa adaptação ou diagnóstico. O processo segue o seu rumo, segue a psique da cliente, sua voz interior, que aparece a partir de seus sonhos.

Esta tarefa não é fácil para ambos, terapeuta e cliente, porque os símbolos, que são a linguagem dos sonhos, que revelam o inconsciente pessoal e coletivo, nos sonhos se apresentam vivos, como símbolos vivos. E o que entendemos por símbolo?

Na perspectiva junguiana, segundo Kast (2010, p. 90), “os símbolos constituem a linguagem da alma. São mensagens que apontam para necessidades que precisam ser solucionadas ou para as quais o sonho já traz uma possibilidade de solução”. Porém, os símbolos oníricos apontam para potenciais não vividos, imprescindíveis para o processo de individuação. Uma imagem é simbólica quando indica algo além do seu sentido imediato ou óbvio, adquirindo um aspecto desconhecido, que nunca será totalmente explicado ou definido, mas é a melhor representação possível para a psique se manifestar (Jung, 1961). O símbolo onírico está além de qualquer determinação, tem a propriedade excepcional de sintetizar as influências do inconsciente e da consciência, bem como as forças instintivas e espirituais, em conflito ou em vias de se harmonizar no interior de cada pessoa.

É preciso usar a intuição para lidar com o símbolo de um sonho, pois ao ser interpretado, deve-se inspirar não apenas na figura onírica, mas no seu movimento, no meio cultural do sonhador e em seu papel particular, no aqui-e-agora. Devemos tentar encontrar a sua matriz, seu código próprio e seu denominador comum, por exemplo, nem particularizando nem generalizando em demasia, evitando sempre racionalizar. A forma clássica de abordar os sonhos, defendida por Jung, consiste em inicialmente ouvir o sonho com precisão e estabelecer o seu contexto subjetivo, através da coleta de todas as associações livres que surgem em relação aos elementos oníricos. Mas, usa-se também da imaginação ativa para vivificar as imagens oníricas.

A imaginação ativa é uma técnica desenvolvida por Jung que toma como ponto de partida uma imagem de sonho ou fantasia, e a partir daí é solicitado que o cliente desenvolva livremente o tema trazido pela imagem, dialogando com ela no “como se”, dramatizando, escrevendo, pintando, etc. Assim, conjugando imagem e ação, promove o desdobramento do processo inconsciente, a confrontação com imagens inconscientes, para que estas possam ser compreendidas.

Quando os sonhos se expressam simbolicamente, e não surgem associações livres da parte do sonhador, recorre-se, além da imaginação ativa, à técnica junguiana da amplificação. Nesta, amplificam-se os motivos dos sonhos, procurando-se relacioná-los, compará-los, levantar paralelos e analogias com um material simbólico mais amplo: extraído da mitologia, da história das religiões, dos contos de fadas, etc. Por esta razão, Jung propunha aos seus pacientes registrar cuidadosamente por escrito os seus sonhos, logo ao acordar. Para o trabalho com as imagens oníricas, não só propunha um trabalho dialético verbal, como também solicitava a imaginação ativa (que o paciente pintasse, desenhasse, fizesse colagens, visualização interna dirigida, quando poderia dialogar e vivenciar melhor as imagens oníricas), como já citamos anteriormente.

Enfim, na abordagem junguiana da interpretação dos sonhos existem três etapas principais: 1) uma compreensão clara dos detalhes exatos do sonho, valorizando a série deles; 2) a reunião de associações e amplificações em ordem progressiva, a nível pessoal, cultural e arquetípico; 3) a colocação do sonho ampliado no contexto da situação vital e do processo de individuação do sonhador (HALL, 1987, p.43).

Pois, muitas vezes, após a análise de uma série de sonhos, é possível ao terapeuta e ao seu cliente apenas esperar, vigiar e confiar. O terapeuta deve tomar cuidado para não cair na tentação interpretativa, pois ao serem analisados sonhos, não são utilizados termos ou conceitos teóricos com o cliente, corre-se o grave risco de privilegiar a compreensão intelectual, mais do que o insight emocional e afetivo. Enfim, “os sonhos e as imagens oníricas são mais complexos que os conceitos (…). O sonho é mais sutil do que qualquer modelo teórico da psique, que não deve ser tratada de modo redutivo” (HALL, 1987, p.92 e 83).

Bibliografia:

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VON FRANZ, Marie Louise. Psicoterapia. São Paulo, Coleção Amor e Psiquê, Paulus, 1999.
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VON FRANZ, M. L. & BOA, Frazer. O caminho dos sonhos. São Paulo, Ed. Cultrix, 2007.

Artigo escrito por:

Cybele Ramalho – CRP (19/300), Psicóloga, Psicoterapeuta Junguiana, Psicodramatista e Diretora Técnica da PROFINT – Profissionais Integrados.