Blog Psicologia Analítica

Artigo III – O MITO DE EROS e PSYCHÊ (relato e reflexões)

cab5

Nossa proposta é rever o conhecido mito grego de Eros e Psychê à luz da teoria junguiana, seguindo uma abordagem simbólica, associando-o à teoria do desenvolvimento da personalidade, descrita por Carlos Byington (1987). Iniciando nossa breve exposição do mito pela origem etimológica dos termos, vemos em Eros o “amor personificado”, o desejo ardente dos sentidos, o prazer; e em Psychê, vemos a “alma personificada”, o princípio vital, o sopro, o ar.

A história mítica é encontrada originalmente no livro de Apuleio, “O Asno de Ouro”; e tem sua origem no século II antes de Cristo, referindo-se à jornada heróica da mulher em busca do amor, para tal enfrentando muitos desafios existenciais. Como este é um mito já bastante conhecido, o resumiremos aqui para fins didáticos, destacando apenas os detalhes, dividindo um resumo do mito original em trechos e acrescentando nossos comentários.

1) Um rei tinha três filhas, mas a mais nova era tão formosa que todos a julgavam mais bela que Afrodite, a deusa da beleza. Por isto, os templos desta deusa foram esquecidos e abandonados. As duas filhas mais velhas se casaram, mas a mais formosa, Psychê, não arranjava pretendente. Afrodite, sentindo-se preterida, invejando Psychê, pede a seu belo filho Eros que vá até o reino fazê-la apaixonar-se pelo mais horrendo dos homens. Preocupado com sua filha, o rei mandou consultar o oráculo de Apolo e a resposta foi que a jovem deveria ser levada para o alto de um rochedo para ser entregue a um monstro terrível. No entanto, ao ver a bela jovem Eros se encantou e se feriu com a própria flecha, apaixonando-se. Ordenou ao vento Zéfiro, que a levasse para uma vale macio e florido, um paraíso, onde seria bem tratada por escravas, não de carne e osso, mas uma multidão de vozes invisíveis, que atendiam a todos os seus desejos. Satisfeita, ela viveu um bom tempo neste vale de sonhos. Ele só a visitava à noite, quando tinham um maravilhoso encontro amoroso, porém sem Psychê poder ver a sua verdadeira face divina. As vozes sempre solícitas, a consolavam da solidão. E finalmente, Psychê chega a engravidar de Eros.

Vemos aí o quanto a “hybris”, o orgulho do mortal ao desejar se igualar aos deuses, pode ser uma afronta a estes, pois segundo os gregos se reproduz como um pecado para os mortais. O casal vive a sua fase inicial cega e encantada do relacionamento. Psychê está, neste momento, vivendo o Dinamismo Matriarcal, onde impera o arquétipo da Grande Mãe e é regida pelo princípio do prazer, pela sensualidade, pelo sentimento, aconchego e fertilidade. Nesta fase do relacionamento, ela não se reconhece verdadeiramente, nem reconhece verdadeiramente Eros, o seu Outro. Vive um estágio de indiferenciação e alienação. Como previra o oráculo, ela vive o “monstro terrível” da paixão. Para ele é levada por Zéfiro, o vento, entrando na dinâmica do invisível, numa dimensão diferente, que não é a da consciência.

2) As irmãs de Psychê tomam conhecimento de que ela está rica e sendo bem tratada pelo marido, vivendo num paraíso. Sentem inveja da sua felicidade, pois não são felizes. Vão visitá-la e perguntam-lhe sobre a verdadeira identidade do seu marido, atiçando-lhe a dúvida: seria ele um monstro, ou uma serpente, que poderia um dia devorá-la, como prevenira um dia o oráculo? Eros prevê a ameaça das irmãs de Psychê e a adverte, pede para não ouvi-las, impondo-lhe, mais uma vez, “nunca de fato ver a sua verdadeira face”. Mas ela, movida pela curiosidade, se prepara para vê-lo à noite, quando dorme, fazendo uso de uma lanterna e de um punhal. Ao ver seu belo rosto, fica tão maravilhada que derrama uma gôta de óleo quente da lamparina sobre o seu corpo, despertando-o do sono. Indignado por ser desobedecido, Eros se enfurece e vai embora, deixando Psychê mais apaixonada e desesperada.Tenta se suicidar jogando-se nas águas de um rio, mas o deus Pã a devolve à terra, lhe dizendo para não desanimar, mas sim invocar a Eros para recuperar o seu amor. Psychê começa a sua peregrinação em busca de Eros.

Vemos o quanto as irmãs, invejosas e competitivas, representam o lado sombrio de Psychê, que começa a emergir. Ao usar da luz da lamparina, ela começa a desenvolver a sua consciência, a querer conhecer, verdadeiramente, o seu parceiro, não e submetendo cegamente a ele, revoltando-se contra um patriarcado demasiadamente rígido. O punhal, por outro lado, representa o aspecto cortante da sua personalidade. Ela ataca o Amor (Eros), como se ele fosse um verdadeiro monstro que estivesse chegando e ao qual ela teme, castrando sua espontaneidade. Assim, ela enfrenta a dor do conhecimento e da transgressão. Mas, por outro lado, expulsa do paraíso ela começa a sair da indiferenciação, a sair da inocência e a iniciar a sua existência, sua jornada heróica. Enquanto isto acontece, Eros se recupera da sua ferida narcísica por ter sido visto por uma mulher mortal, convalesce da queimadura. A gota de azeite que o fere representa a marca que o amor de Psychê deixou nele, pois, a partir dela, será outro. Sua presença o obriga a descer da sua defesa patriarcal e se sensibilizar, humanizar, contactar com o seu feminino interno.

3) Assim, Psychê não tem outra alternativa senão recorrer à sogra, Afrodite, que após humilhá-la e bater-lhe, impõe que ela realize quatro tarefas para recuperar Eros, tarefas estas consideradas perigosas e impossíveis. A primeira tarefa consiste em separar uma montanha de sementes numa noite. Nesta tarefa, Psychê é auxiliada pelas formigas, que desempenam este trabalho para ela.

As tarefas representam todo um ritual que Psychê precisa passar, para evoluir do estágio de “menina” para mulher, evoluindo no seu processo de Individuação. Podemos inferir que, nesta primeira tarefa, Psychê ainda está vivenciando o Dinamismo do Matriarcado (Byington, 1987), tentando sair da indiferenciação, regida pelo prazer, pelo sonho e pelo invisível. Para tal ela é ajudada pelos seres filhos da terra, as formigas, símbolos da paciência e da persistência. As formigas trazem a possibilidade de organização e disciplina. Representam também os instintos ctônicos mais primitivos, que estão presentes, simbolizando um princípio inconsciente selecionador instintivo. As ágeis criaturas da terra é que vão ajudar Psychê a aprender a discriminar, no meio do caos e da confusão. Os grãos que devem ser selecionados representam os potenciais ocultos da vida, os quais ela precisa descobrir e saber selecionar, separar o que é bom do que é mal para ela. No campo do Amor, este é um importante aprendizado para a mulher, que lhe orienta a escolha entre “o mocinho ou o bandido”.

4) A segunda tarefa é recolher os flocos de lã de ouro de ovelhas ferozes. Desesperada, Psychê tenta mais uma vez o suicídio, por julgar impossível enfrentar as ovelhas. Ao se jogar no rio, um caniço, planta flexível da água, a aconselha a recolher os flocos do chão do pasto, ao por do sol, quando as ovelhas se recolhem para dormir, sem poder atacá-la. Psychê segue seu conselho e consegue com sucesso realizar a tarefa.

Nesta tarefa, ela é auxiliada pelo caniço encontrado nas águas, simbolo da flexibilidade e da maleabilidade. As ovelhas ferozes representam o Masculino feroz, o rude, o primitivo, ao qual Psychê precisa enfrentar com atitudes flexíveis. O ouro e o sol representam o poder valioso do Masculino. Ela aprende que não deve se encontrar com o Masculino em seu extremo de ferocidade, mas quando este se ameniza. Em outras palavras, como se diz no provérbio popular, aprende a “não cutucar o cão com vara curta”, mas na hora e da forma adequada. Quando o sol se põe, surge a situação propícia para o amor. Esta tarefa ensina que a mulher não pode deixar o homem (nela e na frente dela) furioso, se ela quer resolver uma questão, mas usar a sabedoria da flexibilidade, para “tirar o ouro do homem”, sem feri-lo nem ferir-se. Ensina a aprender a lidar com a autoridade, com os limites dela e do seu parceiro, sem ser castradora. Por isto, representa a entrada de Psychê no Dinamismo do Patriarcado (Byington, 1987), quando ela vai aprender a lidar com as leis do arquétipo do Pai.

5) A terceira tarefa ordenada por Afrodite é recolher uma porção de água da fonte de um rio, que sobe uma montanha e desce às profundezas da terra, numa pequena urna de cristal. A fonte ficava no alto de um penhasco e protegida por dragões ferozes. Desesperada, Psychê é auxiliada nesta tarefa pela àguia de Zeus, pois este tenta ajudar Eros a recuperar o seu amor, sendo então a águia que recolhe a água da fonte para ela.

A urna de cristal simboliza a feminilidade de Psychê, que deverá conter o Masculino fecundante, o líquido da vida. Ela tem de mobilizar, para realizar esta tarefa, seu recurso interno aéreo, espiritual, representado pela águia, que vai unir o masculino e o feminino, sendo esta uma união sagrada de opostos, uma espécie de Coniunctio Superior. Esta águia vem de Zeus, o representante maior dos deuses gregos, que a ajuda a transcender. O rio que sobe ao alto e desce às profundezas é como uma fonte de água que une o céu e a terra, o espiritual ao instintivo. Esta tarefa ensina que a mulher precisa integrar o seu aspecto masculino inconsciente para poder se desenvolver. Precisa aprender a ter vitalidade interna, determinação, amplitude, força e coragem nos seus atos, o que é ativado nesta tarefa pela águia. Esta é o elemento de núcleo anímico da Alma que vem para auxiliá-la a encontrar o masculino interno. Assim, ela se prepara para a integração interna de opostos, e consequentemente, para o Encontro Eu-Tu, como uma espécie de ritual de iniciação para o verdadeiro Amor. Segundo Byington ( 1987) este estágio de desenvolvimento da personalidade é o do Dinamismo da Alteridade, regido pelos arquétipos da Anima, do Animus e da Coniunctio. É o dinamismo que rege as relações de troca e de reversibilidade, inversão de papeis e mutualidade na relação, em nível criativo e dialético. O princípio essencial deste dinamismo é o chamado para o Encontro, através do engajamento pelo conhecimento, pelo amor e pela entrega.

6) A quarta e última tarefa é para descer aos infernos, ao Hades, para buscar numa caixinha fechada, o que fornece beleza a Perséfone, a rainha do inferno. Psychê acha que é impossível realizar esta tarefa e sobe à Torre, para tentar o suicídio pela terceira vez. A cada tentativa, morre uma Psychê para nascer outra, renovada e metamorfoseada em suas atitudes e recursos internos. Mas, neste momento da terceira tentativa, a Torre fala a Psychê e a orienta para a travessia para o Inferno. É recomendada a jamais abrir a caixinha que continha a beleza imortal. Entre as recomendações está que ela não deve atender às súplicas para ajudar a um ancião morto e a velhas tecelãs. Enfim, ela consegue a caixinha mas, curiosa e tentando ficar mais bela para agradar o seu amor Eros, a abre. Um sono infernal atinge Psychê de imediato, pois sono era só o que havia na caixa. Neste impasse, finalmente Eros, curado da sua ferida narcísica, se mobiliza para ajudá-la, pedindo a Zeus que lhe tire o sono e devolva a caixa a Afrodite. Zeus o atende. Psychê é julgada pelos deuses e considerada inocente, obtendo o grau de imortal e levada da terra para o céu, casando finalmente com Eros. Ela dá à luz a uma filha, chamada Volúpia, que significa prazer e bem aventurança.

Nesta última tarefa, finalmente Psychê é inserida no Dinamismo Cósmico, da Totalidade e da Sabedoria (Byington, 1987), na dimensão do seu Self. A Torre é um símbolo cultural que emerge do inconsciente coletivo, símbolo de Hera, do elemento fogo (espiritual), que a orienta a não se deixar levar pela piedade, para não carregar o peso de“ pessoas mortas”, saber dizer não a quem tente suga-la e faze-la se desviar do seu destino.

A fim de completar as quatro tarefas perigosas para encontrar o Amor, Psychê se auxilia de uma divindade e de um elemento da natureza. Revisando, encontramos no Mito: 1) as formigas, representando a deusa da terra, Deméter e o elemento terra; 2) o caniço, representando o deus Pã, e o elemento água; 3) a águia, representando Zeus, e o elemento Ar; 4) a Torre, representando Hera e o elemento fogo.

A integração perfeita dos quatro elementos forma o quatérnio, que por sua vez contém o círculo, símbolo da unidade e do Self (a ‘quadratura do círculo’). Na perspectiva pitagórica, o amor é o princípio cósmico de unificação dos elementos que constituem a Natureza. Neste Mito, se reconstitui o ciclo cósmico, com a ajuda dos quatro elementos vitais. E finalmente Psychê, derrota o “monstro” que poderia devorá-la, assimilando-o e transformando-o.

Voltando à origem etimológica dos termos EROS e PSYCHE, a sua união representa a integração do corpo (desejo ardente) com a alma. A nossa heroína, Psychê, que estava inicialmente indiferenciada e dividida (na dualidade), aprende ao final do seu processo de Individuação a integrar o mundo da Natureza ao mundo espiritual, através da vivência do Amor, o que a conduz à experiência de realização do seu Self.

BIBLIOGRAFIA:

VON FRANZ, Marie L. – “A interpretação dos Contos de Fada”, São Paulo., Ed. Paulus, 1990.
__________________, – “O Significado Psicológico dos Motivos de Redenção nos Contos de Fada”, São Paulo, Ed. Cultrix, 1993.
BONAVENTURE, Jette – “O que conta o conto”, São Paulo, Ed. Paulus, 1998.
MONTEIRO, Regina – “Jogos Dramáticos”, São Paulo, Ed. Àgora, 1993.
BYINGTON, Carlos – “O desenvolvimento da Personalidade”, São Paulo, Ed. Àtica, 1987.
BETTHELHEIM, Bruno – “Psicanálise dos Contos de Fada”, São Paulo, Ed. Paz e Terra, 1980.

ARTIGO ESCRITO POR:

Cybele Ramalho – CRP (19/300), Psicóloga, Psicoterapeuta Junguiana, Psicodramatista e Diretora Técnica da PROFINT – Profissionais Integrados.