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Artigo V – A METÁFORA DA JORNADA DO HERÓI

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Nunca é tarde demais para responder ao chamamento da Alma e empreender uma aventura (Pearson, 1998, p.152).

INTRODUÇÃO

Nem demorou muito e estou aqui, mais uma vez, pegando meu barquinho e colocando no rio para voltar a navegar. O material que levarei comigo, como campanheiro de leitura, tem como tema – A metáfora da Jornada do Herói. Este foi o tema do módulo do mês de julho do curso de Psicologia Analítica.

Foram dois dias de aula, 24 e 25 de julho. Dias leves e muito instigantes. Já saí da aula animada para reencontrar com meu barquinho. Neste módulo, diferente do anterior, não tive receio de iniciar minhas leituras. Fiquei rapidamente fascinada pelo tema.

O objetivo deste módulo foi apresentar aos alunos a jornada do herói em seus estágios, segundo Joseph Campbell; compreender a origem e o desenvolvimento da Consciência e a jornada heroica do ego; conhecer os doze arquétipos predominantes na jornada do herói interior, segundo Carol S. Pearson, e vivenciar este conteúdo atráves de exemplos da mitologia grega.

A tarefa proposta como atividade de avaliação foi baseada num trabalho feito pelo grupo na caixa de areia sob a coordenação da professora Cybele Ramalho. A tarefa consistia em cada aluno escolher três miniaturas que representassem os momentos da sua jornada do herói interior. Em seguida foi sugerido que todos colocassem as miniaturas na caixa de areia e contasse uma estória, dando nome aos personagens. O próximo passo foi eleger uma estória para ser protagonizada. Duas estórias foram escolhidas e foram feitos alguns desdobramentos da mesma. Por fim, compatilhamos a experiência vivida.

A tarefa para avaliação consistiu em cada aluno recriar a estória mítica pessoal em cima da estória contada no trabalho da caixa de areia, com os três arquétipos escolhidos. O objetivo é amplificar a estória e analisar a própria produção criativa.

Para a análise foi sugerido o livro de Carol S. Pearson, O Despertar da Jornada Interior e o dicionário dos símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant. Vale acrescentar que antes do módulo foi sugerido que os alunos fizessem um teste de diagnóstico, o Índice de Mitos Heróicos (IMH), o qual traz como resultado o escore total para cada arquétipo.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Para analisar a estória mítica levaremos em consideração os arquétipos da jornada do herói. Segundo Carol S. Pearson (1998), a jornada do herói consiste primeiramente na realização de uma jornada para encontrar o tesouro representado pelo nosso verdadeiro Self e, em seguida, na volta ao ponto de partida, para dar nossa contribuição no sentido de ajudar a transformar o “reino” e, ao fazê-lo, transformar a nossa própria vida. A jornada nos ajuda a descobrir e honrar aquilo que é realmente verdadeiro no nosso ser. Todo aquele que empreende uma jornada já é um herói.

Cada jornada heróica é única e a transformação do “reino” depende de cada um. A cada jornada empreendida somos ajudados pelos guias interiores, os arquétipos, cada um dos quais ilustra uma maneira de ser, pensar e agir durante a jornada.

A analista Junguiana Carol Pearson (1998) em sua obra “O Despertar do Herói Interior”, identificou doze arquétipos: o Inocente, o Órfão, o Guerreiro, o Caridoso, o Explorador, o Destruidor, o Amante, o Criador, o Governante, o Mago, o Sábio e o Bobo. Cada um dos arquétipos tem uma lição para nos ensinar e preside uma etapa da jornada. Todos são importantes para a jornada heróica e para o processo de individuação.

O modo como vemos o mundo é definido pelo arquétipo que estiver dominando nossos pensamentos e ações. O movimento através dos doze arquétipos é um processo arquetípico que nos ajuda a desenvolver valiosas habilidades para a vida cotidiana.

De acordo com Pearson, a jornada do herói inclui três grandes estágios:

1) A preparação – o objetivo deste estágio é a busca do desenvolvimento do Ego, que em geral predomina da infância ao início da vida adulta, num processo de auto-afirmação. Os arquétipos ou heróis predominantes neste estágio são o Inocente, o Órfão, o Guerreiro e o Caridoso.

2) A jornada – o objetivo é buscar a transformação, do encontro com nossas verdades conscientes e inconscientes. Deixamos a acomodação e os apegos à Persona e embarcamos numa luta solitária, onde encontramos “dragões” (a nossa sombra, Anima/Animus, metamorfoses, etc.). Na jornada propriamente dita os arquétipos são o Explorador, o Destruidor, o Amante e o Criador;

3) O retorno – o objetivo é o “encontro” com o Self, quando nos tornamos mais conscientes do nosso potencial e singularidade, colocando-o em prática em beneficio de nós mesmos e da coletividade. São predominantes deste estágio os heróis (arquétipos) do Governante, do Mago, do Sábio e do Bobo.

Pearson destaca que, embora, a imagem do herói passando pelos estágios de preparação, jornada e retorno e sendo ajudado, na devida ordem, pelos doze arquétipos seja útil como um instrumento de aprendizado, na maioria dos casos, obviamente, o desenvolvimento realmente não acontece de forma assim tão definida e linear. Nossos guias é que escolhem o momento de vir até nós, embora, em certa medida, nós também influenciemos essa definição.

O padrão da jornada do herói assemelha-se a um espiral. Na jornada em espiral podemos encontrar cada arquétipo diversas vezes e receber novas dádivas em níveis mais elevados ou profundos de desenvolvimento.

É importante destacar que quando um ou mais arquétipos não estão ativos, nós omitimos passos. Pode ser ainda que expressemos o arquétipo em suas formas negativas. De acordo com Pearson, as doze cabeças de dragão são os lados negativos dos arquétipos; se não encontrarmos os segredos que elas escondem de nós, essas cabeças podem ser letais. Quando nos sentimos terrivelmente mal, muitas vezes, estamos expressando um arquétipo em seu aspecto negativo. Para recuperar nossas energias, precisamos simplesmente determinar qual arquétipo está nos possuindo e, em seguida, nos recusarmos a ser possuídos por ele. Entretanto, geralmente só podemos fazer isso se honrarmos o arquétipo expressando-o de alguma maneira. Nesse caso, procuramos fazer com que ele se expresse em seu aspecto mais positivo.

Vale lembrar que cada jornada é única e cada explorador traça um novo caminho. Quando aprendemos quais são os diversos caminhos heróicos possíveis, compreendemos que todos têm a oportunidade de sermos heróicos à nossa própria e singular maneira.

ESTÓRIA MÍTICA PESSOAL

Era uma vez um menino chamado Davi que morava numa comunidade nos arredores de uma grande floresta e adora cavalgar. Todos os dias ele saia em seu cavalo em busca de novas descobertas. Enquanto cavalgava ele se sentia um guerreiro em expedição e fazia o que era possível para viver novas experiências. Davi era um menino meigo, curioso e corajoso. Era difícil vê-lo com medo de algo naquela floresta. Tudo o encantava, até o perigo. Quanto maior o desafio, mais atração Davi tinha.

Ele, contudo, apesar de ser sentir um guerreiro, e não temer os desafios era extremamente cauteloso e evitava colocar-se em situação na qual o risco oferecido era, por ele, considerado maior do que sua capacidade de enfrentar. Mesmo ainda criança, ele olhava as situações que surgiam e via se era viável seguir adiante ou retornar.

Esse olhar perspicaz e atento o acompanhou, e à medida que ele crescia, essa característica se aperfeiçoou. Seu desejo de liberdade e a necessidade de novas descobertas cresciam a cada dia. Logo o tempo passou e Davi tornou-se um homem forte e cheio de sabedoria. Ele usava essa sabedoria para promover a paz e o desenvolvimento em sua comunidade.

Rapidamente Davi destacou-se no meio de seu povo e começou a fazer parte de um grupo que trabalhava em prol da proteção da floresta e desenvolvimento de uma vida mais segura na comunidade. Sua força e sabedoria logo o tornaram encarregado de comandar inúmeras expedições de exploração a novos lugares até então pouco conhecidos. O curioso é que ele sempre voltava vitorioso destas expedições. Sempre perdia poucos homens, pois nunca buscava um conflito no qual colocasse seu grupo em risco. Esse zelo com seu povo o fez ainda mais especial.

Nesta comunidade não havia diferenciação de homens e mulheres. Todos trabalhavam em prol do bem comum. E as crianças começavam a ser atuantes neste papel de multiplicador logo cedo. Nestas expedições tanto homens como as mulheres adultas participavam. Todos podiam fazer tudo. Cada um escolhia seu papel de acordo com suas potencialidades.

Todos da comunidade da Floresta faziam questão de conhecer esse homem explorador. Seus atos heroicos e as palavras proferidas nas reuniões, que antecediam as expedições, faziam dele um grande orador. Falava pouco, mas seu olhar e seus exemplos heroicos contagiavam todos que o ouviam.

Certa vez, ele contou a história de que, quando era ainda criança, em uma de suas brincadeiras de expedição, encontrou na floresta uma coruja falante. Esta falou do grande homem que ele se tornaria e da importância de seguir os preceitos do “bom homem” em tudo que ele se propusesse a fazer. Ainda pequeno, Davi fez o desenho daquela coruja misteriosa e até hoje, mesmo adulto, ele levava este desenho sempre com ele. Era seu amuleto da sorte. Ele nunca havia esquecido aquela coruja.

Assim que Davi se tornou um homem adulto, foi eleito governante daquela região. Era homem de atitudes simples, mas com um senso de grande responsabilidade, honestidade e proteção com seu povo. Durante seu governo houve um grande progresso da sua região. Assumir o governo não foi uma tarefa árdua para Davi. Ele sentia prazer em trabalhar em prol de todos. Ele sabia que era importante deixar seu legado.

Na sua última fase da vida, já idoso, sempre o avistavam embaixo de uma grande árvore. Quando era questionado a respeito do que fazia lá, ele sempre respondia: _ “Embaixo daquela árvore encontro a paz necessária para reencontrar com a coruja que me acompanha desde pequeno”. Depois de seu governo, surge na sua família, outra pessoa que continuará seu trabalho. Mas isso é uma outra história.

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ANÁLISE DA ESTÓRIA MÍTICA

Antes de analisarmos a estória mítica é importante lembrarmos que todos os mitos do herói, culturais ou individuais, indicam-nos os atributos que são considerados definidores do bem, do belo e da verdade, e assim, nos ensinam muitas aspirações valorizadas culturalmente. Muitas dessas histórias são arquetípicas. Os arquétipos, como postulava Carl Jung, são padrões permanentes e profundos da psique humana que se mantêm poderosos e atuantes ao longo do tempo.

Na estória mítica acima relatada os arquétipos dominantes são: o Guerreiro, o Explorador, o Governante e o Sábio. Outros arquétipos aparecem na estória: o Criador, o Caridoso, o Mago, por exemplo. Contudo, o foco desta análise será baseado nos quatro arquétipos principais.

Importante, também, trazer o registro do resultado dos escores dos arquétipos no teste diagnóstico, o Índice de Mitos Heroicos (IMH) feito narradora da estória. Os maiores escores foram: Explorador (28), o Guerreiro e o Governante (25), o sábio, (24). Os demais arquétipos e seus escores foram: Inocente (11), Órfã (13), Caridoso (19), Amante (19), Destruidor (16), Criador (21), Mago (23) e Bobo (14).

Como já foi citado anteriormente, de acordo com Pearson, a jornada do herói inclui três grandes estágios: a preparação, a jornada e o retorno. Existem quatro arquétipos predominantes em cada uma destas fases. Doze arquétipos no total. Assim, será feita a análise da estória mítica trazendo inicialmente o arquétipo do Guerreiro, que se encontra na fase da preparação da jornada; depois do Explorador, fase da jornada propriamente dita; e por fim dos arquétipos do Governante e do Sábio, fase do retorno.

ARQUÉTIPO DO GUERREIRO

O arquétipo do Guerreiro diz respeito à afirmação de nosso poder no mundo, ao estabelecimento do nosso lugar no mundo e transformação deste mundo num lugar melhor. Um Guerreiro interior bem desenvolvido se faz necessário, acima de tudo, para proteger nossas fronteiras. Sem um poderoso Guerreiro interior nós não temos nenhuma defesa contra as exigências e intromissões dos outros.

Na estória mítica vemos a presença deste arquétipo no herói. Davi representa o Animus da narradora. A estória mostra a preocupação do herói em defender as fronteiras para que sua comunidade se desenvolva em segurança. Fica claro que Davi não deseja atingir seu objetivo de defesa da comunidade por meio da guerra. Ele, como Guerreiro de alto nível, substitui as armas tradicionais dos Guerreiros predatórios e primitivos, por elementos como habilidade, sabedoria e a capacidade de se defenderem legal e verbalmente e de reunir apoio para suas causas.

Na estória mítica do Guerreiro Davi, podemos compreender como a coragem e o esforço humano pode vencer o mal. Interessante o fato de a narradora escolher o nome do seu protagonista Davi. Isso nos faz lembrar à história de Davi e Golias e do quanto essa história foge a dos heróis, como no caso de Alexandre, o grande, de Napoleão, no qual o vitorioso é um general maduro e experimentado. No caso da história de Davi é um personagem menor e mais jovem que derrota o valentão maior e mais velho.

Lembrar que, pela história Bíblica do antigo testamento, enquanto todos imaginavam destruir o Gigante Guerreiro Filisteu Golias com o uso de armadura, capacete, colete e espada, o Pequeno Guerreiro de Israel Davi, despiu-se de toda essa vestimenta e foi corajosamente até o gigante levando apenas cinco pedras e uma tira de couro. Usando sua Sabedoria Davi vence Golias com uma pedrada bem na testa.

Vemos, de maneira geral, que, na verdade, existe uma tendência comum de se confundir o valentão com o Guerreiro. Um Guerreiro de verdade luta para proteger e dignificar os outros; o valentão procura sentir-se superior aos outros e mantê-los sob o seu domínio, ainda que lute para protegê-los. Qualquer Guerreiro de um nível razoavelmente alto trata os outros com o mesmo respeito com o qual espera ser tratado.

Precisamos ser suficientemente espertos ou habilidosos, ter bastante coragem e disciplina para vencer o mal. Além disso, não somos apenas responsáveis por nós mesmos, temos a obrigação de defender os fracos e oprimidos. Nunca devemos usar o poder da espada ou da palavra para ferir desnecessariamente outra pessoa. Devemos usar a mínima força necessária e a abordagem menos agressiva possível dentre aquelas capazes de proteger adequadamente nossas fronteiras. (Pearson, 1998, p.118)

Davi mostra-se este Guerreiro habilidoso porque, na sua trajetória de vida, em todas as suas expedições, a vitória é alcançada não apenas sem derramamento de sangue, mas também sem que ninguém seja humilhado. Todos são iguais para nosso guerreiro, inclusive as mulheres, que muitas vezes aparecem como figuras frágeis e inferiores.

O Guerreiro, Davi, sadio e maduro desenvolve a capacidade de identificar, em espirais cada vez mais amplas, o que deve ser protegido: em primeiro ele mesmo (enquanto criança ele se mostra maduro em não se colocar em uma situação de grande risco), depois de seus entes queridos, os outros membros da sociedade e, finalmente, o planeta (quando nosso herói adulto vai para as expedições e vence, e quando se torna governador da sua comunidade).

O lado negativo deste arquétipo é a crença de que não é totalmente certo nos contentarmos em ser apenas humanos. Nós precisamos provar que somos melhores do que os outros. O Guerreiro quer ser o melhor, e, necessariamente, isso deixa os outros numa condição inferior e, em última análise, compromete a ética do guerreiro.

Esta é a possessão do Guerreiro. Essas pessoas não possuem o arquétipo de Guerreiro; na verdade, este arquétipo que as possui. Segundo Pearson, estes supostos Guerreiros, já que não são Guerreiros de verdade, são, na verdade, Órfãos que apaziguam seus sentimentos de impotência tentando controlar os outros.

Inevitavelmente, todas as formas negativas do Guerreiro precisam desenvolver e afirmar seus Órfãos interiores (para aumentar sua empatia) e seu Inocente interior (para reduzir sua descrença) a fim de poderem transformar-se em Guerreiros positivos e poderosos. Assim, se o Inocente e o Órfão estiverem muito feridos e o Caridoso não for bem desenvolvido, as metas, planos e estratégias do Guerreiro serão cínicos, egoístas e voltados para os seus próprios interesses. Eles não terão em vista o genuíno desenvolvimento psicológico e espiritual, mas, simplesmente, a garantia da sobrevivência básica.

Para tornar-se um Guerreiro de alto nível, a verdadeira batalha é sempre contra os inimigos interiores, a preguiça, a descrença, a desesperança, a irresponsabilidade e a rejeição. A coragem de enfrentar os dragões interiores é o que nos permite enfrentar os dragões exteriores com sabedoria, habilidade e autodisciplina.

ARQUÉTIPO DO EXPLORADOR

Falando do segundo escore mais elevado no IMH, teremos o arquétipo do Explorador. O explorador procura encontrar um futuro melhor ou criar um mundo mais perfeito. Este arquétipo responde ao chamamento do espirito, para ascender.

O explorador vê o chamamento como se fosse um rito de passagem, uma experiência iniciatória do transpessoal, sem o que o verdadeiro Self não pode nascer. (Pearson, 1998,154).

Segundo Pearson, frequentemente a busca se inicia porque a vida nos parece limitada ou vazia e, assim, sentimos a necessidade de fazer alguma coisa. Experimentamos o chamamento na forma de um sentimento de alienação ou de limitação de nosso ambiente atual. Porém, o nosso desejo de agradar, de nos ajustarmos, de satisfazer as exigências da nossa família, de um grupo de amigos, do trabalho ou da escola ainda é demasiado forte. A maioria de nós sabe que o rompimento destas regras subtendidas podem causar desconfortos. Porém, para nos desenvolvermos, será necessário viver essa tensão e fazer uma escolha.

No inicio, nós nos ajustamos para satisfazer os companheiros e as pessoas que ocupam posição de poder, e depois continuamos a fazer isso para garantir o nosso sucesso financeiro, o nosso status, e para agradar a família e os amigos. O conformismo, entretanto acaba criando uma tensão entre quem realmente somos por dentro e o comportamento que se espera de nós. Essa tensão é absolutamente necessária para o desenvolvimento. O “ajustamento” é definido pelas maneiras através das quais as pessoas se assemelham; a individualidade é definida pelas maneiras através das quais elas diferem umas das outras. Assim, é a nossa própria singularidade, o nosso Self, que não se adapta completamente ao meio. (Pearson, 1998, p.150)

Pela estória mítica vemos que Davi, um Explorador em potencial, desde muito pequeno saia em busca de viver desafios na floresta que era vizinha à comunidade em que ele vivia. Logo que cresce sai em expedições maiores. Ele anseia por algo, que todo indivíduo que tem esse arquétipo desenvolvido anseia: sempre quer mais do que lhe proporcionam a família, o emprego e os amigos.

Assim, para Davi sair em sua jornada ele precisará ter a coragem de abandonar o mundo e as experiências que ele conhece. Isso não significa a impossibilidade de ele continuar ligado a essa comunidade e, muito menos, a necessidade de abandoná-la fisicamente. Isto implica estabelecer algum distanciamento emocional para podermos seguir o nosso próprio caminho e pensar de forma independente.

Este distanciamento foi conseguido nos passeios de Davi pela Floresta, enquanto pequeno, e no refugio embaixo de uma árvore, na sua fase madura. Os passeios de Davi na floresta fez com que ele encontrasse a coruja, símbolo da sabedoria. De acordo com Chevalier e Gheerbrant a coruja é tradicionalmente atributo de adivinhos: simboliza seu dom de clarividência. A coruja, ave de Atena, simboliza a reflexão que domina as trevas.

O encontro com a coruja, possivelmente, simboliza a possiblidade do herói se encontrar consigo mesmo, visando um modo de viver que seja mais significativo e profundo. Seria uma espécie de encontro e consciência de suas próprias forças e potencialidades interiores.

Na fase mais madura do herói, o Davi idoso, sempre era visto embaixo de uma árvore, sozinho, por horas. Quando era questionado a respeito do que fazia lá, ele sempre respondia: _ “Embaixo daquela árvore encontro a paz necessária para reencontrar com a coruja que me acompanha deste pequeno”.

Segundo o dicionário de símbolos, a árvore é um dos temas simbólicos mais ricos e mais difundidos. Significa cosmo vivo, em perpétua regeneração. Símbolo da vida em perpetua evolução e em ascensão para o céu, ela evoca todo simbolismo da verticalidade.

A árvore põe igualmente em comunicação os três níveis do cosmo: o subterrâneo, através de suas raízes sempre a explorar as profundezas onde se enterram; a superfície da terra, através de seu tronco e de seus galhos inferiores; as alturas, por meio de seus galhos superiores e de seu cimo, atraídos pela luz do céu. (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2009, p. 84).

A paz encontrada, possivelmente, era conseguida na medida em que o herói encontrava dentro dele aquilo que ele procurava no mundo exterior. Segundo Pearson, o herói pode ser satisfeito quando percebe que o importante é expandir a nossa consciência para além das fronteiras da realidade do Ego. Se não encontrarmos dentro de nós mesmo aquilo que procuramos, não será no mundo exterior que conseguiremos fazê-lo.

Davi, nestes encontros com a coruja, tem a possibilidade de descobrir quem ele realmente é. Ele despe-se do papel social criado por ele e por seu ambiente (despe-se de sua persona) e encontra seu Self. Lembrar que o objetivo final do Explorador é a realização do Self através da transcendência, sermos plenamente o nosso melhor Self e estarmos integrados ao cosmos.

Para Pearson, o Explorador interno está em busca de um significado e é simbolicamente representado no mito do graal pelo cavaleiro à procura do Santo Graal. Por mais bem-sucedidos que sejamos na vida, o nosso Explorador interno fica desconsolado se não encontramos um senso de elevado valor e significado em nossas vidas. Embora muitos cavaleiros saiam em busca de seus poderes, apenas os puros e os bons podem encontrá-lo. Interessante como essa passagem é dita de forma clara pela coruja para o nosso herói Davi: “Esta falou do grande homem que ele se tornaria e da importância de seguir os preceitos do ‘bom homem’ em tudo que ele se propusesse a fazer”.

O Explorador interior não se deterá diante de nenhum obstáculo para descobrir a verdade a respeito do cosmos e do significado de nossas vidas. Esse impulso é tão forte que, se for necessário, o Explorador está disposto a privar-se de seus relacionamentos e realizações mais preciosas. O Explorador interno está disposto a morrer, literal ou metafisicamente, para conhecer beleza suprema da verdade cósmica. A questão aqui, porém, não é tanto a morte física, mas a disposição de morrer para nosso antigo Self, para dar origem ao novo. A busca é o chamamento do Espírito para experimentarmos o renascimento e a transformação, para morrermos para o antigo e renascermos para o novo. Assim, em todo ponto da jornada, todo Explorador transforma-se num Iniciado.

É preciso, entretanto, ficar atento para o lado negativo do Explorador o qual se manifesta na forma de uma necessidade obsessiva de sermos independentes, o que nos mantêm isolados. Outra forma negativa do arquétipo é o orgulho. Se esses impulsos forem totalmente rejeitados, ele poderá manifestar-se através de sintomas físicos e mentais.

ARQUÉTIPO DO GOVERNANTE

Falaremos agora do arquétipo do Governante. Fase do retorno na Jornada do herói. O escore da narradora neste arquétipo no IMH foi 25.

A jornada do herói deste arquétipo é frequentemente vista como uma preparação para a liderança. Na vida, nós nos transformamos no Governante ao assumirmos a total responsabilidade pela nossa vida, não apenas pela nossa realidade interior, mas também pela maneira como nosso mundo exterior reflete essa realidade.

O Governante é um símbolo de totalidade e realização do Self, não apenas em seus estágios de formação e experimentação, mas também como uma expressão de nosso Self no mundo, uma expressão suficientemente forte para transformar nossa vida, interna e externamente. O Governante é integral porque o arquétipo unifica a sabedoria da juventude e da idade avançada, mantendo-as juntas num mesmo estado de tensão dinâmica. Quando essa tensão se desarranja e surge um desequilíbrio, é preciso empreender uma nova jornada e encontrar um novo tesouro para que o reino possa ser mais uma vez transformado. (Pearson, 1998, p.210)

O arquétipo do Governante engloba não apenas os extremos de juventude e maturidade como também o masculino e feminino. O soberano andrógino é um símbolo da conclusão do processo transformador alquímico.

Outra característica do Governante é de ser o arquétipo da prosperidade material. Portanto, o Governante deve estar pronto e capacitado para lidar com o mundo tal como ele é. Cabe a ele promover a ordem, a paz, a prosperidade e a abundância. Isto significa uma economia saudável, leis justas (que sejam aceitas e obedecidas), um ambiente que promova o desenvolvimento de cada pessoa e o uso racional dos recursos humanos e materiais.

As pessoas com o arquétipo do Governante desenvolvido são pessoas realistas que não tem tempo para cultivar ilusões. Fazem escolhas que equilibram suas predileções, esperanças e sonhos com o contexto onde estão inseridos.

Quando o arquétipo do Governante está ativo em nossa vida, ficamos a vontade no mundo físico e sentimos que temos o controle do nosso Self. Apreciamos o processo de nos expressarmos nos domínios físicos do trabalho, do lar, do dinheiro e dos bens materiais, e temos alguma segurança de que sabemos como atender às nossas necessidades.

Vemos a influência deste arquétipo no herói Davi quando este busca promover o desenvolvimento de seu povo e por consequência de sua comunidade. Também tem um grande senso de promover as potencialidades de seu povo, sem fazer a distinção entre homens e mulheres. Pela estória mítica ele aparece como um homem de leis justas, sem exercer sua autoridade de líder e sem abuso do poder.

O arquétipo do Governante tem o objetivo de afirmar o nosso próprio poder, para o bem ou para o mal. Segundo a autora, muitas pessoas temem os arquétipos mais poderosos, especialmente o Governante e o Mago, porque sua capacidade de fazer o mal é tão grande quanto fazer o bem.

Contudo, a autora explica que se consultarmos nossa Alma, não correremos o risco de tomar decisões precipitadas simplesmente baseadas nos caprichos do Ego. Quando aprendemos a viver de uma maneira que reflete a maior profundidade de nossos conhecimentos, começamos a viver de modo diferente.

Quando o Governante predomina, esta é a nossa oportunidade de ver a nos mesmos como soberanos em nossos reinos e de agir no sentido de fazer com que a nossa vida seja aquilo que gostaríamos que fosse. (Pearson, 1998, p.213)

A ajuda do Governante na jornada de Davi está no desejo dele em conservar a vida de seu povo e de ter o controle sobre tudo da sua comunidade. Todos os bons líderes se identificam com o bem da coletividade e conseguem equilibrar os desejos e aspirações pessoais com as necessidades das outras pessoas. O herói da estória conseguia isso com muita prontidão. Ao buscar o que queria para si mesmo, ele também levava em conta as necessidades da sua comunidade como um todo.

O surgimento do arquétipo positivo do Governante na psique indica alguma realização vitoriosa no mundo. Davi viveu isso em sua comunidade. Ele trabalhou em prol do bem de todos, se destacou e passou a ocupar um lugar de poder. Apesar de seu destaque como líder, ele continuava com sua vida comum. Essa era a sua escolha.

Outra característica, que mostra o domínio do Governante em Davi é que ele está sempre atento para descobrir o potencial das pessoas, de forma a usar seus dons de forma produtiva. Na estória ele organiza suas expedições, na qual tanto homens como as mulheres adultas participavam, e todos podiam fazer tudo. Cada um escolhia seu papel de acordo com suas potencialidades.

O fato de ele observar as potencialidades do seu povo e de também dar essa liberdade para que o próprio indivíduo observasse qual o seu melhor papel social, possivelmente, fazia com que cada um estivesse trabalhando num papel que realmente se identificava, compreendendo e apreciando suas potencialidades. Com isso em vez de se sentirem reprimidos, viviam em harmonia e se sentiam verdadeiramente produtivos em sua missão para proteção e desenvolvimento da comunidade. Talvez este seja um dos segredos, do sucesso de suas expedições.

Porém, como também acontece nos outros arquétipos, algo pode ocorrer na jornada do indivíduo que faz com que ele não encontre seu próprio poder, não encontre sua Alma, mas sim o poder do mal. Desta forma teremos o domínio do lado negativo do arquétipo.

O aspecto negativo do Governante é sua compulsiva necessidade de controlar a si mesmo e aos outros, e uma incapacidade em confiar no processo. Quando estamos sob o domínio do aspecto negativo do Governante, perderemos inevitavelmente nossos impulsos mais autênticos, humanos e saudáveis. A pessoa se sente tentada a usar seu poder para o enaltecimento do Ego ou para sua satisfação pessoal. De fato, podemos nos sentir privados de qualquer senso de realidade interior ou tão obcecados com a realidade da nossa Alma que recusamos qualquer tipo de compromisso com as necessidades dos outros ou com as exigências da época e do lugar onde vivemos.

As características dos indivíduos que estão dominados pelo aspecto negativo do Governante são: egoísmo, rigidez, intolerância, sentimento de vingança, e geralmente são pouco criativos ou inteligentes.

Embora o fato de nos transformarmos no Governante da nossa vida seja por si só uma grande vitória, ele não representa o fim da jornada. Para permanecermos fortes e eficazes na nossa vida e nas nossas atividades é importante complementar o Governante com outras figuras arquetípicas que ajudam a promover o equilíbrio: O Mago, o Sábio e/ou o Bobo.

ARQUÉTIPO DO SÁBIO

O arquétipo do Sábio é o que mais se destaca como complementar dos demais arquétipos anteriormente analisados (Explorador, Guerreiro e Governante). O escore do IMH da narradora da estória, no arquétipo do Sábio, foi o terceiro mais alto, 24.

O caminho do Sábio é a jornada para encontrar a verdade, a respeito de nós mesmos, do nosso mundo e do universo. Os sábios são “detetives” em busca da realidade que está por trás das aparências.

Os médicos, os psicólogos e todos os verdadeiros terapeutas precisam do conselho de um Sábio interior ou exterior para que o diagnóstico e o tratamento sejam apropriados à condição do paciente. (Pearson, 1998, p. 242)

Para Davi, esse herói interior era representado pela imagem da coruja falante. Davi, na conversa com seu Sábio interior (a coruja), procurava alcançar algum tipo de verdade objetiva situada além dos limites da sua verdade pessoal.

O sábio nos ajuda a nos livrarmos das preocupações do Ego e a nos abrirmos para uma verdade mais profunda acerca da vida. Enfrentar essas questões essenciais nos dignifica e nos torna mais humildes.

Para o herói Davi, percebe-se que é fundamental ser ajudado pelo Sábio para conseguir o equilíbrio em sua vida. Veja que ele a considera seu amuleto da sorte. Enquanto seu lado governante quer controlar a realidade e transformar circunstâncias negativas em positivas, o seu lado Sábio tem pouca ou nenhuma necessidade de controlar ou modificar o mundo; ele simplesmente quer entendê-lo.

Pearson explica que o desafio do Sábio é interpretar as pistas e solucionar o mistério que está por trás da existência, seja o da sua própria existência, o da outra pessoa ou do universo. Todavia, se nossa mente consciente e o nosso Ego forem excessivamente racionais e puderem compreender apenas algumas poucas pistas, o nosso Sábio interior fica diante do dilema enfrentado por muitos homens e mulheres sábios que não são compreendidos e ninguém lhes dá crédito.

Vale destacar que essa tarefa, do encontro com a verdade mais profunda, de solucionar o mistério por trás da existência, vai ficando cada vez mais complicada à medida que o Sábio prossegue em sua jornada. Por conseguinte, os Sábios conseguem desenvolver um senso de humildade que resulta do reconhecimento de sua radical subjetividade. Assim, tomamos consciência que cada um de nós é apenas uma parte de uma realidade maior; embora possamos ter a aspiração de conhecer o todo, essa ambição nunca será realmente satisfeita, pois individualmente nenhum de nós consegue enxergar o suficiente para fazê-lo.

Só depois que compreendermos a impossibilidade de conhecermos alguma coisa com certeza absoluta é que conseguimos nos soltar, parar de perseguir o conhecimento e deixar que a verdade penetre em nossa vida como se fosse uma dádiva.

De acordo com Pearson, em algum momento, o Sábio para de buscar o conhecimento e alcança a sabedoria, que é o objetivo de seu caminho. Além disso, o Sábio nos ensina que nunca poderemos ser livres até que estejamos dispostos a renunciar completamente às nossas ilusões e vínculos e procuremos sintonizar os nossos próprios desejos com a verdade.

Para o Sábio compreender a verdade suprema precisa desenvolver sua mente e seu coração e abrir sua alma. De fato se não compreendermos o filtro (conhecimento de nós mesmos) através do qual a verdade se manifesta, nunca teremos uma pista a respeito do modo como estamos distorcendo essa verdade através da nossa visão subjetiva.

É importante eliminarmos o fingimento e sermos completamente sinceros acerca do que é verdadeiro num dado momento, nossas esperanças, temores, vulnerabilidades e feridas. Enquanto estivermos usando máscaras e tentando aparentar ser mais do que realmente somos, nunca nos tornaremos sábios.

Fazendo uma combinação dos arquétipos de Guerreiro e Sábio observa-se que quando o arquétipo de Guerreiro está ativo na nossa vida, podemos debater, discutir e, até mesmo ir à guerra por nossas diferentes verdades. Quando o Sábio é dominante na nossa vida, porém, iremos reconhecer que precisamos ouvir uns aos outros e que só depois disso poderemos formular uma verdade relativa.

Observe que, na estória mítica, Davi antes de sair em expedições sempre fazia reuniões com seu povo. Acredito que essa era a sua forma de compartilhar ideias, passar e receber ensinamentos, estabelecer estratégias e sair para as expedições mais fortalecidos.

Precisamos ter cuidado para não sermos capturados pelos aspectos negativos do Sábio, pois ficamos mais isolados da realidade. O sábio negativo frequentemente se esforça em excesso para ser perfeito, sincero e estar sempre certo, não demonstrando nenhuma tolerância em relação aos ensinamentos e vulnerabilidades humanas normais. Essas pessoas também podem se sentir tão dominadas pela relatividade das coisas que lhes seja impossível realmente agirem. Acaba adotando uma atitude de ceticismo por causa da elevada consciência da imperfeição de todo tipo de vida e de sua incapacidade para conhecer alguma coisa com segurança.

Quando o sábio negativo está atuando na nossa vida, nós muitas vezes nos tornamos prisioneiros de pensamentos obsessivos, tentando entender tudo através de processos racionais. Se não conseguirmos fazer isso, ficamos paralisados. Como as principais decisões da vida não podem ser tomadas de maneira cientifica e racional, quando continuarmos tentando isso, o Sábio negativo pode apoderar-se de nós e o nosso raciocínio tornar-se circular. (Pearson, 1998, p. 249).

Os Sábios sombra geralmente buscam controlar o conhecimento para que este não represente uma ameaça para eles. Seu principal objetivo não é mais a obtenção da sabedoria, e sim, o juízo que os outros possam fazer dele. Assim, o objetivo deixa de ser a busca da verdade e passa a ser a defesa, por parte do individuo, de sua própria posição privilegiada.

Assim, quando somos escravizados pela sombra, nós nos sentimos frios, vazios, defensivos e ameaçados pelos outros. Nós frequentemente também somos mal-compreendidos pelos outros, que, por alguma razão desconhecida, consideram-nos dogmáticos e conservadores.

Desta forma, a maior conquista do sábio é a libertação dos vínculos e ilusões. Quando estamos vinculados a determinadas coisas, nosso julgamento será distorcido porque não estamos livres e, portanto, não podemos enxergar com clareza. O caminho para o nível mais elevado do sábio consiste em aprender a formar vínculos, ou seja, a amar as pessoas sem ficar dependentes delas ou de sua aprovação, de maneira que não precisamos mantê-las conosco se elas não quiserem isso. Quando o Sábio negativo dá demasiada importância à aprovação dos outros, a realização ou a qualquer tipo de resultado não fica livre e, normalmente, ele sofre.

Assim, precisamos aprender a tarefa de forma vínculos, desenvolver o arquétipo do Amante. Só assim, conseguiremos nos entregar totalmente ao trabalho sem ficar presos ao resultado desse trabalho. Significa encontrar a nossa voz e ser capazes de compartilhar a nossa visão e entendimento tendo consciência de que amanhã poderemos deparar com uma verdade mais profunda e sermos forçados a reconhecer que a nossa verdade anterior era ingênua ou ultrapassada.

Quando deixarmos de tentar nos adaptar a vidas que não nos servem e nos decidirmos a viver vidas que nos fazem realmente felizes, a liberdade e a alegria podem ser experiências normais em nossas vidas. É este radical abandono à alegria e ao bem-estar que nos prepara para a sabedoria do bobo.

CONCLUSÃO

Vimos que na nossa vida podemos empreender várias jornadas. A cada jornada empreendida, somos ajudados pelos nossos guias interiores, os arquétipos. Uma vez que decidimos iniciar uma nova jornada, passaremos por diversos testes que tem por função verificar se estamos realmente preparados. Embora o despertar de todos os doze arquétipos favoreça uma vida mais rica e plena, não é uma atitude realística pensar que todos eles serão igualmente ativos.

Assim, despertaremos os doze arquétipos e a singularidade da nossa jornada se dará, pela combinação específica de dois ou três arquétipos que são mais dominantes na nossa vida. O sentido da nossa vida depende, então, do script que adotamos consciente ou, o que é mais provável, inconscientemente. Estudar os arquétipos desperta e ilumina a nossa compreensão da sua influência em nossas vidas de modo a nos tornarmos mais íntegros e conscientes da nossa jornada interior.

Responder ao IMH, bem como a tarefa de criar a estória mítica com as miniaturas na caixa de areia, escrever essa história e analisá-la foi uma experiência edificante. Por meio da tarefa foi possível a narradora da estória identificar, de forma mais concreta, como as características de cada arquétipo aparecem no seu mito e perceber, assim, quais arquétipos são dominantes em sua vida e quais precisam se desenvolver para encontrar uma vida mais plena.

Por meio da conquista dessas informações amplia-se o olhar tanto como terapeuta, como a nível individual. Entender a existência e a influência dos arquétipos proporciona a compreensão da nossa forma de ser, pensar e agir durante as jornadas. Fica mais fácil perceber o quanto na nossa jornada do herói interior, na nossa busca eterna do processo de Individuação, é importante possibilitarmos a emergência de níveis arquetípicos mais evoluídos e positivos, que facilitem a realização do Self, integrando aspectos conscientes e inconscientes, com o advento da função transcendente.

Se alcançarmos este estágio, a fase do “heroísmo” é ultrapassada e alcançamos o estágio da Transformação. O indivíduo aprende a conduzir sua vida de forma mais leve e equilibrada e as dualidades começam a desaparecer, ele não vive mais na unilateralidade da consciência. Aflora um contato maior com o cosmo, com a coletividade e emerge uma verdadeira alegria, liberdade e autenticidade no viver.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos: mitos, sonhos, gestos, formas, figuras, cores, números. 24°ed. Rio de Janeiro: Olympio, 2009.
PEARSON, Carol S. O Despertar do Herói Interior: A presença dos doze arquétipos nos processos de autodescoberta e de transformação do mundo. 10° ed. São Paulo: Pensamento, 1998.
RAMALHO, Cybele Maria Rabelo Ramalho. Psicodrama da Jornada do Herói Interior: Articulando Psicologia Analítica e Psicodrama. Aracaju, 2008.

Filme: coleção “O Poder do Mito”. Entrevistas com Joseph Campbell. Editora Globo. 4DVDs, edição especial. Livraria Cultura.

ARTIGO ESCRITO POR

Ivna Vieira, estudante do Curso de Formação de Psicologia Analítica, realizado pela PROFINT – Profissionais Integrados Ltda.