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Artigo X – Psicologia Analítica e Religião: um breve esboço de leituras acerca do tema

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Esse texto traz uma síntese do pensamento de Jung sobre a Religião, bem como minhas breves impressões a respeito. Para tanto utilizei a leitura dos livros: “Psicologia e Religião” do próprio Jung, “C.G. Jung: Espiritualidade e Transcendência” de Brigitte Dorst e “Individuação: Adão Alienado, Cristo Reconciliado” de Ana Elizabeth C.B. Rabelo, para compor e fundamentar tal escrita.

Jung (1987), trata o fenômeno religioso com uma perspectiva empírica, ressaltando que observa os fenômenos e se abstém de qualquer abordagem metafísica ou filosófica. Portanto, trata-se de uma Psicologia empírica. Para ele a psique possui uma função religiosa e isto quer dizer que possuímos uma capacidade inata de produzir símbolos significativos e tocantes, sendo naturalmente dotado de um senso do sagrado.

O termo Religião (religere) é entendido por ele como uma acurada e conscienciosa observação do numinoso. Este último (numinoso) é relativo a divindade, independe da vontade da pessoa e pode ser uma presença invisível que produz uma modificação especial na consciência. Deste modo, “religião designa a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do numinoso” (Jung, 1987, p. 10). A religião está presente na natureza humana, como esclarece Rabelo (2010), na sua vida social e pessoal.

Jung (1987) nos diz que esta experiência foi sacralizada e enrijecida dentro de uma construção mental inflexível onde seu exercício e repetição transformaram-se em rito e instituição imutável. Acredito que é a partir desta ideia que ele diferencia a experiência original do “religare” e do numinoso com a religião enquanto instituição. Também me parece ser esse aspecto o que gera interpretação equivocada de leigos ao afirmarem que Jung trata do assunto sob um aspecto místico.

Há um trecho neste livro que considero fundamental para a nossa prática enquanto psicólogos, pois ele diz que não devemos tomar um credo religioso e, como tal, possuidor de verdade exclusiva e eterna. Deste modo, não é isto que deve ser tomado como ponto de partida, mas a psicologia do homo religiousus, ou seja, daquele que observa certos fatores que agem sobre ele; deve concentrar sua atenção no aspecto humano do problema religioso. Jung escreveu que a melhora de seus pacientes, em muitas ocasiões, ocorria através da recuperação do senso de religião, pois, como esclarece Rabelo (2010), a experiência do numinoso baseia-se na ativação de forças arquetípicas (entendo que na psicologia analítica significa que são imagens e emoções que são derivadas do inconsciente coletivo e da sua relação com o inconsciente pessoal) da própria psique. Estas forças agem dirigindo o Ego para o Self.

Hall apud Rabelo (2010) nos lembra que Jung preferia deixar as questões relativas ao Deus metafísico aos teólogos, pois teve o cuidado de distinguir as manifestações psicológicas das teológicas.

Jung (1987) fala que a experiência religiosa é algo de absoluto e é indiferente o que pensa o mundo a este respeito, pois aquele que a tem (a experiência) possui um tesouro que se converteu numa fonte de vida para tal pessoa.

No livro de Dorst (2015), autora que fala do tema Espiritualidade e Transcendência, reuniu os diversos textos e livros de Jung sobre o tema religião, espiritualidade e transcendência. A autora elucida que a espiritualidade se refere a todas as formas de religiosidade, independentemente de confissões e igrejas, e abrange uma pluralidade de fenômenos religiosos. Portanto, independe das tradições e remete às dimensões profundas da experiência que não são mais perceptíveis em muitas formas de religião. A autora Junguiana esclarece que nas obras de Jung o termo “espiritualidade” como é usada hoje em dia, não era usual na época dele. Assim, Religião e “religiosidade” eram as designações estabelecidas e com a preocupação de desenvolver uma psicologia da “experiência religiosa”, sendo esta um fenômeno psíquico.

No que diz respeito ao termo transcendência, a autora supracitada explica que Jung cita “função transcendente” psicológica para se referir à união de conteúdos conscientes e inconscientes através de uma transição de uma mentalidade para outra.

Deste modo, a transcendência da psique refere-se segundo Dorst (2015), às experiências espirituais de conexão com o divino, com o absoluto, que vão além da consciência cotidiana, mas que tudo o que pode ser apreendido e percebido com os sentidos e o mundo invisível do inconsciente faz parte de uma totalidade indivisível, uma realidade una chamada por Jung de unus mundus.

Jung (1987) refere que a “religião” ou “confissão”, como ele prefere chamar, tem a finalidade de “substituir a experiência imediata por um grupo adequado de símbolos envoltos num dogma e num ritual fortemente organizados” (p. 48). Neste último aspecto ele cita a Igreja, enquanto instituição religiosa, como a mantenedora do dogma e ritual que define se a experiência imediata provém de Deus ou do diabo, se deve ser repelida ou aceita. Contudo, Jung diz que tratou de diversos pacientes que vivenciaram uma experiência imediata, mas não queriam se submeter à decisão da autoridade eclesiástica e os acompanhou em crises, conflitos e medos de enlouquecer. Sobre este aspecto ele ressalta a importância do dogma e dos ritos, ao menos enquanto método de higiene, apoiando, com isso, um meio defensivo contra um grave risco.

No tocante aos símbolos religiosos, este surge nos textos citados neste trabalho muitas vezes relacionados aos sonhos. Apenas para ilustrar, me detenho nas citações de Jung (1987) acerca da simbologia do número quatro (4) ou quaternário que surge em setenta e um (71) dos quatrocentos (400) sonhos de um de seus clientes. O número quatro (4) alude a uma ideia ligada à tetraktys dos pitagóricos. Tal símbolo possui caráter numinoso, “sacro”. Jung elucida que para estudiosos das ciências naturais e filósofos da natureza de muitos séculos atrás discutiam o problema da quadratura do círculo que constituía uma projeção psicológica de coisas antigas e inconscientes. Mas sabia-se que o círculo significava a divindade; a esfera continha o número quatro que simbolizava as partes, as qualidades e os aspectos do Uno.

No tocante a interpretação de sonhos e símbolos é necessária certa inteligência, como alerta Dorst (2015), pois ela exige um crescente conhecimento da individualidade do sonhador bem como um autoconhecimento sempre maior por parte do intérprete. Entendo que num contexto de psicoterapia, esse conhecimento deve existir tanto por parte do cliente quanto do psicoterapeuta, mas sobre este último é reforçado a premissa de que o profissional deve investir muito na sua terapia pessoal.

Quanto à essência do símbolo, Rabelo (2010) cita que Jung se referia a uma união da verdade racional com a irracional, pois ele deve conter ambos os lados. Enriquece este entendimento com a citação de Mircea Eliade quando ele diz que o símbolo revela algo mais profundo e enquanto elemento religioso toca nas estruturas do mistério da vida que é sentido como a dimensão sacramental da existência humana.

Jung (1987) diz que tanto ele como outros colegas viram diversos casos onde os sonhos e as visões traziam este simbolismo, cujo método comparativo com outros povos e épocas, mostra que a quaternidade é uma representação de um Deus que se manifesta na sua criação. Ele conclui que o símbolo produzido espontaneamente nos sonhos dos homens modernos indica algo semelhante – o Deus interior. Diante da longa experiência dele e de colegas com tais observações, ele diz que não é mais possível pôr em dúvida tal existência. Neste caso ele fala da existência de uma imagem arquetípica de Deus e “é tudo o que se pode dizer, psicologicamente, acerca de Deus” (p.64).

Há outros aspectos discutidos com profundidade por Jung no seu livro “Psicologia e Religião” sobre o simbolismo da quaternidade, bem como acerca de outros símbolos associados tais como a Trindade, a relação do quarto aspecto com a representação do demônio, da terra, da mulher; cada um com base em estudos de filósofos medievais, outros em alquimistas. Contudo, não pretendo esgotar tais aspectos neste texto.

O que também busco ressaltar aqui é que Jung nos chama a atenção para conhecermos alguns aspectos de nossa Sombra. Rabelo (2010) explica que na psicologia analítica se tem o entendimento de que esta é inerente à psique, mas pertence ao universo inconsciente. Porém, mesmo sendo reprimida ou negligenciada, não pode ser eliminada. A Sombra abarca qualidades que rejeitamos e que permanecem dentro de nós como uma segunda personalidade. A autora diz:

“Quando a sombra é projetada, o indivíduo não percebe as sinistras intenções nela existentes, como o inimigo velado da dúvida interior ou as baixas motivações da voracidade e do auto engrandecimento que têm estado por detrás de inúmeras atrocidades” (p. 64). É interessante notar que a Sombra pode ultrapassar os limites do pessoal e alongar-se na ‘Sombra Coletiva’. Isto pode acontecer quando homens ditos civilizados, reunidos em massa, acabam por se portar dentro de padrões inferiores de comportamento” (p. 30).

Quanto a este assunto, Jung me parece muito atual em relação à realidade que vivemos, embora se referisse a outra situação e época (fim da década de 30 do século XX). Para melhor ilustrar coloco abaixo os trechos do livro “Psicologia e Religião”:

“Observe-se a incrível crueldade de nosso mundo supostamente civilizado – tudo isto tem sua origem na essência humana e em sua situação espiritual! Observe-se os meios diabólicos de destruição! Foram inventados por gentlemans inofensivos, cidadãos pacatos e respeitados (…). Mas, como cada um está cegamente convencido de não ser mais do que uma simples consciência, muito humilde e sem importância, que cumpre suas obrigações, ganhando seu modesto sustento, ninguém percebe que toda a massa racionalmente organizada a que se dá o nome de Estado ou Nação é impelida por um poder aparentemente impessoal, invisível, mas terrível, cuja ação ninguém pode deter. Em geral, tenta-se explicar esse poder terrível pelo medo diante da nação vizinha, que se supõe estar possuída por um demônio maligno (…). Projeta seu próprio estado no vizinho. Torna-se então um dever sagrado possuir canhões e os gases mais venenosos” (p. 54).

E não é isso que vivemos nos dias atuais? O homem moderno que não vai em busca do “si-mesmo” e ainda lança partes do seu inconsciente correspondente à “Sombra” projetadas no mundo externo, muitas vezes potencializando ações maléficas e destrutivas atribuindo às outras Nações ou Estados o mal que na realidade está encrustado em cada um que apenas projeta?

Alinhando essa análise com a citação de Dorst (2015) sobre textos de Jung nas obras completas, destaco:

“É preciso ocupar-se consigo mesmo senão não há como tornar-se alguém, senão nem é possível desenvolver-se. (…) Quanto mais alguém se torna consciente de si mesmo mediante o autoconhecimento e o agir correspondente, tanto mais desaparece aquela camada do inconsciente pessoal acumulada sobre o inconsciente coletivo. (…) Essa consciência ampliada não é mais aquele emaranhado sensível e egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições pessoais, que precisa ser compensado ou então também corrigido por tendências contrárias pessoais e inconscientes, mas é uma função relacional vinculada ao objeto, ao mundo, a qual transfere o indivíduo para dentro de uma comunhão incondicional, compromissiva e indissolúvel com o mundo” (p. 32).

A autora, Dorst (2015), sintetiza todo este entendimento dizendo que o indivíduo está ameaçado por perigos mortais que ele mesmo criou e que lhe fogem ao controle. Daí compara a humanidade a um indivíduo em que, na condição atual, está sendo arrastada por forças inconscientes. Considera muito problemático manter a ideia de que “os nossos adversários” estão completamente errados do ponto de vista moral e filosófico, esperando que os mesmos se arrependam e reconheçam seus erros em vez de fazermos (enquanto ocidente) um sério esforço para reconhecermos nossas sombras e suas maquinações traiçoeiras. Arremata de modo bem atual aos últimos acontecimentos no mundo[i][1], de que na prática fazemos o mesmo que eles, só com a desvantagem de não vermos nem querermos ver o que praticamos sob o manto de nossas boas maneiras.

Como nos diz Rabelo (2010), quando a pessoa alcança a busca efetiva do Self (si-mesmo) e entra em contato com a totalidade, ele passa a carregar consigo também um aspecto pior, defeitos reconhecidos e que não são possíveis de se desligar destes, mas que justamente por isso faz a pessoa preservar um senso ético. Deste modo, o objetivo não é alcançar a perfeição, pois totalidade psíquica quer dizer certo equilíbrio alcançado entre consciente e inconsciente, produzindo-se uma situação de certa paz e plenitude. Todos os autores colocam a palavra “certo ou certa” no sentido de “não muito definido ou exato” porque essa totalidade (Self) é sempre um processo e não um resultado acabado, definitivo. Por isso, iniciei o parágrafo com o termo “alcança a busca”, pois é isso o que importa.

Enfim, é necessário ler mais algumas vezes os textos de Jung para compreender melhor o assunto. Esse texto só pinça alguns aspectos citados por ele e outros autores que se baseiam nele. Trago uma tímida explanação sobre o meu olhar e entendimento acerca deste tema. Considero imprudente tecer opiniões amplas e firmes sem uma leitura mais aprofundada. Por isso recomendo aos leitores (me incluo nessa recomendação) deste simplório texto a se entregarem ao estudo do tema em Jung, na sua vasta obra.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DORST, B. Espiritualidade e transcendência / C.G. Jung; seleção e edição de Brigitte Dorst. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
JUNG, C.G. Psicologia e Religião. Petrópolis, RJ: Vozes, 1987 (Obras Completas de C.G. Jung; v.11/1).
RABELO, A.E.C.B. Individuação: Adão alienado, Cristo reconciliado. São Paulo: Iglu, 2010.

[1] A edição desse livro é de 2015, mas é naturalmente anterior ao fato ocorrido na sexta-feira 13 de novembro do corrente ano em Paris, mas não sei ao certo se anterior ou posterior ao ocorrido em abril deste mesmo ano em Garissa, Quênia. Neste último, terroristas que tomaram o campus, na fronteira com a Somália, integravam o Al-Shabaab, grupo somali ligado à Al-Qaeda e combatido pelo Quênia desde o fim de 2011. Consideravam a universidade “um território muçulmano”, que precisava se libertar “dos infiéis”. Daí a ação sanguinária. Os extremistas acabaram assassinados durante o cerco policial. Entre os 148 mortos, contavam-se 142 estudantes (fonte: http://operamundi.uol.com.br/blog/samuel/perguntas/por-que-minha-fraternidade-e-tao-seletiva/).

ESCRITO POR

Sheila de Araújo Barboza