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Artigo XIII – A SEXUALIDADE INFANTIL SEGUNDO JUNG: DIVERGÊNCIAS COM A PSICANÁLISE PRIMEVA

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Quando Jung rompeu com Freud, ele estava negando a etiologia sexual das neuroses, como alguns críticos não tão bem informados falam? Jung se preocupou somente com o desenvolvimento do adulto desconsiderando o desenvolvimento da criança? Qual a real divergência na concepção junguiana de desenvolvimento da sexualidade em relação a concepção freudiana? Essas perguntas ainda são atuais devido aos maus entendidos ou boca a boca que imperam infelizmente também nas ciências humanas, local onde o senso crítico deveria substituir o senso comum, porém muitas vezes não é isso o que acorre. No livro de Jung, O Desenvolvimento da Personalidade, há alguns artigos e ensaios em que são apresentadas as principais considerações sobre a infância, educação de crianças e influência da personalidade dos pais no desenvolvimento dos filhos, onde o que se leva em conta é principalmente a qualidade do relacionamento psíquico entre os pais como fator importante no desenvolvimento psíquico infantil, e também o papel do PENSAR, e de sua elaboração no desenvolvimento dos rudimentos e dos conflitos, entre eles os de ordem sexual, com vista ao aperfeiçoamento crescente das funções superiores da inteligência.

Sem dúvida a sexualidade não é o único fator nesse desenvolvimento, mas é sim levada em consideração por Jung, e não é pouca a importância que ele dá a sexualidade, é uma importância constitucional a qual inúmeras observações já comprovaram e que seria uma irresponsabilidade sua negação. Porém, este não é o único fator de desenvolvimento humano, e nesse livro ele deixa claro uma posição intrínseca sua, que é considerada até mesmo pós-moderna por estudiosos das ciências humanas, qual seja, a de que é da natureza dessa ciência poder apresentar apenas pontos de vistas heurísticos, e não explicativos e redutores como uma perspectiva positivista gostaria de um dia alcançar. Sua grande crítica a Freud é ter reduzido a etiologia das neuroses a uma única causa explicativa, portanto, única e exclusivamente a sexualidade.

Na introdução de seu livro há o apontamento de alguns dos pontos de vista que deveriam servir para formar o grande quebra cabeça que compõe a psique humana, os estudos acerca da sexualidade e sua perspectiva hedonista estão entre eles, juntamente com o estudo baseado no ponto de vista da busca do poder, do qual Adler é um grande proponente, embora não seja tão estudado no Brasil; o ponto de vista do desenvolvimento lógico e cognitivo, que apresenta outras possibilidades de entendimento e intervenção e o qual Jung não exclui, muito pelo contrário, ele dá destaque ao desenvolvimento do pensamento dentro de sua abordagem, e o desenvolvimento das concepções religiosas iniciais a respeito da natureza de Deus, do infinito, do eterno, que sem dúvida são perguntas que uma vez ativadas ajudam no desenvolvimento do pensamento, e que mesmo poderiam estar na base de futuras crises existenciais, principalmente se dentro de uma educação que reprimiria esses questionamentos.

Jung não negligenciou a infância ao dar atenção ao comportamento adulto, e mesmo concebia que os desenvolvimentos infantis e a mente infantil existiam dentro do adulto como gérmen de futuras disposições polivalentes possíveis e ainda não desenvolvidas e acessadas. Se formos focar na diferença entre Jung e Freud no quesito sexualidade, há uma outra diferença que se acentua além da abordagem heurística-abrangente de Jung em contraste com a abordagem redutiva-causal de Freud, Jung dizia que o componente sexual infantil não tende para um alvo como na sexualidade adulta, e que casos em que a sexualidade infantil buscava uma prática, como na masturbação, eram já devido a um desenvolvimento anormal das concepções intelectuais frente a qualquer conflito que tenha se apresentado.

Os conflitos nessa ordem seriam resolvidos através da elaboração e do desenvolvimento do pensar, e nesse sentido, Jung chamou atenção para a vulnerabilidade particular, mas não exclusiva, das crianças bem dotadas na apresentação de precocidades neuróticas, isso porque ao manifestarem sua curiosidade sexual ou de outras ordens precocemente, podem ter suas inquietações barradas por uma pedagogia despreparada e repressora. Jung fez críticas ao modelo pedagógico de seu tempo que requeria mudanças, como ainda hoje se faz necessário, e os principais causadores de neuroses nesse sentido apontados por Jung seriam a má educação dos pais e professores a respeito do tema. A nuance diferencial é que ao contrário do que era concebido na psicanálise de Freud, em que a inteligência surgia a partir de uma frustração dos desejos na sua busca hedonista, para Jung a sexualidade e inteligência provêm de uma mesma matriz polivalente, e o pensamento se desenvolve junto com essa disposição constitucional rudimentar, não para atingir o objeto de desejo sexual, mas para realizar-se em sua finalidade intrínseca. Assim, a criança não seria uma perversa polimorfa, mas teria disposições polivalentes, não somente de natureza ou com função sexual.

Curiosamente então, a psicologia de Jung foca sim o processo de desenvolvimento infantil das funções superiores através da elaboração de conflitos que surgem e desafiam a totalidade, e suas reflexões também tem impacto não só na clínica, mas na esfera pedagógica, escolar ou de orientação dos pais e professores, sendo essas as notícias que deveriam estar correndo boca a boca.

Segundo Jung “é por meio da formação de concepções que a libido encontra o caminho livre e apto para o desenvolvimento, de modo que lhe seja assegurada sua atuação permanente” (JUNG, p. 6). Ao contrário do adulto que não aceita um desenvolvimento e modificação de concepções intelectuais para servir de sucedâneo para o objeto sexual, é exatamente isso o que acontece com a criança quando se lhe aduba a inteligência e curiosidade, o componente sexual rudimentar entra na dinâmica e ajuda a desenvolver o intelecto tendo na verdade este fim (bem… aqui faço uma ressalva, este livro é de 1910, e embora esteja correto, os desenvolvimentos posteriores da psicologia analítica fariam com que fosse mais adequado dizer que estes desenvolvimentos tem como fim a alma total, que inclui outros fatores importantes além do pensamento lógico e simbólico, como o sentimento, percepções).

Nisso a psicologia analítica e psicanálise primeva não estavam de comum acordo, embora seja claro que a psicanálise teve um desenvolvimento desde a ruptura de Freud e Jung que a modificou. Porém, nessa época, para a psicologia analítica o gérmen intelectual já estaria lá enquanto rudimento, e deveria ser satisfeito em suas necessidades, enquanto que na psicanálise o intelecto só surgiria e se desenvolveria em virtude da frustração do objeto alvo de seu desejo, que levaria então a alucinação do objeto e criação assim do espaço mental.

Uma neurose em Jung seria tratada por meio da formação de concepções e ferramentas intelectuais na relação com os educadores, e “mesmo aceitando que também a sexualidade adulta se desenvolve a partir desses gérmens polivalentes, não se pode concluir de modo algum que a sexualidade infantil primordial seja pura e simplesmente sexualidade” (JUNG, p.7).

TABELA COM PRINCIPAIS DIFERENÇAS SOBRE O DESENVOLVIMENTO INFANTIL EM JUNG E FREUD

Diferenças acerca do desenvolvimento infantil e etiologia das neuroses Jung Freud
Abordagem Heurística-inclusiva-abrangente (aceita outros pontos de vista) Redutiva-causal-fechada
Finalidade da sexualidade A sexualidade não tem a mesma função de obtenção do objeto de desejo como no adulto. Os instintos têm como finalidade o desenvolvimento da alma. As frustrações e possíveis neuroses advém da falta de concepções e meios adequados que satisfaçam as curiosidades despertadas pelos afetos instintivos A sexualidade da criança tende para o objeto alvo, e se frustra ao não realizar seu desejo.
Origem da Inteligência O intelecto está em estado rudimentar desde o início junto com a sexualidade e outros instintos O intelecto se forma como uma consequência da frustração hedonista
Teoria Teoria da libido (energia que alimenta e se transforma em outros instintos, não só o sexual) Teoria sexual
Natureza da criança A criança tem disposições polivalentes A criança é um perverso polimorfo

Bibliografia

C. G. JUNG. O Desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis: Vozes, 1998, vol. XVII.

Escrito por

Ana Paula Chaplin