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Resenha Crítica I – CISNE NEGRO: Percepções à luz da Psicologia Analítica

cabecalho

Cisne Negro (Black Swan, 2010) é um filme de Darren Aronofsky, diretor que já havia apresentado em obras anteriores uma forte influência da psicanálise, como em “Réquiem Para um Sonho” (2000). Classificado como um drama/suspense, Cisne Negro foi indicado ao Oscar de melhor filme, melhor direção e melhor fotografia e fez da atriz Natalie Portman a ganhadora do Oscar e do Globo de Ouro de Melhor Atriz em 2011.

A trama apresenta as dores físicas e psicológicas da personagem Nina (interpretada por Natalie Portman) em sua busca para se tornar a primeira bailarina do corpo de balé de Thomas Leroy (Vicente Cassel). A companhia se prepara para interpretar uma nova versão de ¨O Lago dos Cisnes¨ e Nina anseia pela chance de dançar tanto o Cisne Branco quanto o Cisne Negro. Em “O Lago dos Cisnes”, um balé dramático do compositor russo Tchaikovsky, em cuja história a princesa Odete é transformada em um cisne branco e precisa do amor sincero de um príncipe para retornar à vida humana. O príncipe, porém, se enfeitiça pelo Cisne Negro, a dissimulada e sedutora feiticeira Odile o que leva o Cisne Branco ao suicídio. É a morte do amor idealizado.

Dedicada e trabalhando duro para aperfeiçoar suas habilidades, Nina vive à sombra de uma mãe cuidadosa e ao mesmo tempo tirana, interpretada pela atriz Barbara Herschey. Manipuladora, controladora e castradora, a mãe de Nina reprime suas vontades e projeta nela seus desejos e sonhos de realização alheia ao mal que causa a filha. Curiosamente a figura do pai de Nina sequer é mencionada na trama e a falta da figura paterna cria uma relação de dependência doentia entre mãe e filha. Aos 28 anos de idade, Nina ainda vive num mundo infantilizado e inocente, num quarto cor de rosa repleto de bichos de pelúcia. Ela é inocente, frágil e ingênua e sua sexualidade é imatura; Nina é a “princesinha”, como é chamada pelo diretor do espetáculo, uma ¨doce menina¨ como é chamada por sua mãe. Nasceu, portanto, para fazer o Cisne Branco.

Nina vive aqui o que Jung chamaria de psique indiferenciada, aquela antes do processo de individuação. Este é o ego alheio ao seu Self ou Eu Superior e alheio ao Inconsciente. Isso se evidencia em Nina por sua vida e energia dirigidas apenas para o ballet, vivendo sob o olhar atento de sua mãe num quarto que reflete ainda a inocência da infância. Seu ego enamorado com a realidade exterior ainda ignora os processos profundos da mente inconsciente. Processos que em breve começam a agitar sua alma e abalar as fundações da sua realidade.

Mas o verdadeiro desafio para Nina está no Cisne Negro, o lado sombrio que ela ainda não reconhece em si mesma: a mulher sedutora, agressiva, sensual, má. Interpretar este papel exige uma malícia e sensualidade que Nina desconhece, até que entra em cena a bailarina Lily (representada por Mila Kunis) que personifica o Cisne Negro. Por sua espontaneidade e sensualidade e por ser tudo o que Nina não é, Nina projeta em Lily uma concorrência que não existe. Etimologicamente falando Lily vem de Lilith. Considerada na cabala judaica a primeira mulher de Adão, ela evoca em mitologias de diversas culturas a imagem da feminilidade desinibida e da sexualidade. Lily veste-se predominantemente de negro, não tem cuidados com a alimentação, faz uso desmedido de drogas, bebidas e cigarro. Ela tem um talento natural para a dança e se sente à vontade para exalar sensualidade e sedução. Nina instintivamente sabe que Lily tem o que é necessário para interpretar o Cisne Negro e desconfia das tentativas de Lily de se tornar sua amiga, mas acaba deixando-a se aproximar, em parte para escapar do protecionismo excessivo de sua mãe o que as leva a uma noite selvagem sem limites. Existe uma amizade conflituosa entre Nina e Lily que desperta seu lado sombrio o que representa uma ameaça de cisão de seu frágil ego.

Lily, portanto, possui todas as características do que Jung chama de Sombra, o lado escuro da mente inconsciente. Nina tanto se sente atraída quanto sente repulsa pelo que Lily representa, mas para desempenhar o papel de Cisne Negro vai precisar entrar em contato este lado sombrio e tudo que nela habita: seus elementos negativos e positivos que podem contribuir para o processo de Individuação. Para M. – L.von Franz, ¨ Se a figura da sombra contém forças vitais e positivas devemos assimilá-las na nossa experiência ativa, e não reprimi-las. Cabe ao ego renunciar ao seu orgulho e vaidade para viver plenamente o que parece sombrio e negativo, mas que na realidade pode não o ser¨ (1)

Outro arquétipo apresentado em Cisne Negro é representado pelo diretor da companhia de ballet, Thomas Leroy, interpretado por Vincent Cassel. Ele escolhe Nina para viver o papel de Cisne Branco, que combina perfeitamente com ela e representa sua persona, mas questiona sua capacidade para desempenhar o papel do Cisne Negro por sentir que sua personalidade virginal e sua boa índole não vão trazer autenticidade ao papel. A cena em que ele a beija e a consequente reação de Nina, que o morde, fazem Leroy perceber que há um cisne negro prestes a emergir. Ele então estimula Nina a explorar sua sexualidade, a seduz e a rejeita e a incentiva a aprender a seduzir. Seu interesse é extrair o melhor desempenho de Nina. Leroy, de Le Roi (O Rei) em francês, representa um símbolo arquetípico importante: O Animus de Nina que surge de maneira poderosa e dura para induzir a mudança e o crescimento, intimidando e provocando, mas sendo uma força orientadora de sua psique feminina. Este arquétipo traz em si o potencial para destruir Nina ou integrar nela um novo e profundo sentido de sua natureza e de suas capacidades. M.-L. von Franz afirma: “Mas se ela (a mulher) se der conta da natureza do seu animus e da influência que ele exerce sobre a sua pessoa, e se enfrentar essa realidade em lugar de se deixar ser possuído, seu animus pode tornar-se em um companheiro interior inestimável que vai dota-la com uma série de qualidades masculinas como a iniciativa, coragem, a objetividade e sabedoria espiritual. “(2)

Nina confronta assim as dificuldades de se relacionar bem com seu animus e de incorporar os elementos positivos de sua Sombra. Mas até que ponto ela é capaz de enfrentar estes dois tremendos desafios? Uma pista das consequências do fracasso na tarefa de integrar estes arquétipos psicológicos é exemplificada pela bailarina em decadência Beth (interpretada por Winona Ryder). Ex-amante de Thomas Leroy, ela representa o destino de uma relação distorcida com o animus que causa uma espiral emocional descendente e auto-destrutiva. Um alerta para que Nina não perca sua chance e aprenda com os erros cometidos por uma figura que admirava.

Mas ainda que Nina consiga explorar sua sexualidade, através da paixão que sente pela sua projeção de Lilly, e faça nascer o Cisne Negro, este contato foi insuportável para ela. No confronto com os elementos de seu inconsciente, Nina não conseguiu dominar, aceitar e integrar suas partes opostas. Ela não estava preparada para isso. Sua relação simbiótica e ambivalente com a mãe não lhe deram o ego necessário para suportar o confronto com sua sombra e a capacidade para interpretar e significar seus processos interiores. Ela nunca foi livre e não cresceu o suficiente para entender as profundezas da natureza humana. Foi vítima de seus próprios conflitos internos evidenciados, entre outras formas, pela automutilação física que expressa suas feridas na alma. Nina sucumbe a possessão de sua sombra o que fica evidenciado pela sequência de eventos que ocorrem no camarim de Nina (tanto o real quanto o imaginário) na noite de estreia do espetáculo. Morrem Nina e seu ego que apenas vislumbram a transcendência do ser.

Cisne Negro pode parecer apenas a história de alguém que está perdendo a cabeça ou tornando-se desequilibrado por conta das pressões de sua profissão ou de sua arte. Sim, para o espectador casual e superficial esta seria a interpretação óbvia, mas como se costuma dizer, as coisas nem sempre são o que parecem ser. Darren Aronofsky mistura a realidade interna e externa da personagem principal para nos contar os desdobramentos de um drama sobre manifestações psicológicas que vão muito além de uma bailarina lutando para não perder a cabeça. Se olharmos de forma mais profunda e contemplarmos os símbolos apresentados podemos descobrir uma alegoria que define algo mais.

O que está fora também é o que está dentro de nós. Com está percepção ampliamos nossa consciência, construímos nossa realidade e consequentemente avançamos no processo de Individuação em busca de nosso Self: o centro regulador de nossa alma. Este algo mais que pode acontecer com cada um de nós, a introspecção sacrificial que tem o potencial para nos tornar grandes, é o desafio final que, se ignorado, significa deixarmos nosso destino por cumprir nos estagnando ou nos destruindo para a verdadeira vida. Assim como a Nina, cabe a nós decidir que escolha vamos fazer em relação ao destino de nossas almas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

(1) VON FRANZ, M. L. O processo de individuação. In: JUNG, C. G. (org). O homem e seus símbolos. 5ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964, pg. 175
(2) VON FRANZ, M. L. O processo de individuação. In: JUNG, C. G. (org). O homem e seus símbolos. 5ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964, pg. 194
CARDIM, Erika Gonçalves. Cisne Negro: Um Convite à Reflexão. Disponível em <http://www.animaestudosjunguianos.com.br/artigos_show.php?cod=55&cat=14> Acessado em 02 de maio de 2015.
MACEDO, Magnus Cesar. Jung, Sonhos e Autoconsciência. Disponível em <http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=330> Acessado em 15 de maio de 201

RESENHA CRÍTICA POR:

Murilo Lima, estudante do Curso de Formação de Psicologia Analítica, realizado pela PROFINT – Profissionais Integrados Ltda.