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Resenha Crítica II – Cisne Negro, segundo conceitos de Jung

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Cisne Negro é um filme de suspense e drama psicológico dirigido por Darren Aronofsky e estrelado por Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey e Winona Ryder. O filme traz uma nova versão do balé “O Lago dos Cisnes”, que estreou no teatro de Bolshoi em 1877. No Brasil, o filme estreou em 2011 e teve cinco indicações para o Oscar, sendo Natalie Portman premiada como melhor atriz.

De forma geral o filme trata da história de uma dançarina que sonha com o posto de “primeira bailarina” da companhia e, para tanto, dedica-se, exaustivamente, à busca da perfeição. Diante da possibilidade de realizar tal sonho não resiste à pressão e adoece mentalmente, psicotiza. É uma obra de grande riqueza simbólica, a qual mostra os mais variados sentimentos humanos, tendo, como fundo musical, Tchaikovsky.

A primeira cena do filme mostra um sonho no qual Nina, a protagonista, dança o Cisne Branco no momento em que sobre este é lançado um feitiço. De acordo com Jung (1987), os sonhos contêm imagens e associações de pensamentos que não criamos através da intenção consciente. Eles aparecem de modo espontâneo, sem nossa intervenção e revelam uma atividade psíquica alheia à nossa vontade arbitrária.

Portanto, o sonho, segundo Jung (1985), é um produto natural e altamente objetivo da psique, do qual podemos esperar indicações ou pelo menos pistas de certas tendências básicas do processo psíquico. Este sonho de Nina nos fornece indícios sobre o início do processo psíquico de tomada de consciência de sua “cisão”. Ela fora enfeitiçada, o que do ponto de vista psicológico indica que existe uma desarmonia entre a atitude da consciência e o inconsciente.

O filme mostra que a protagonista está o tempo todo voltada para o aperfeiçoamento da sua técnica, buscando cada vez mais perfeição, treinando exaustivamente e controlando excessivamente sua alimentação. Embora Nina esforce ao máximo seu corpo para efetuar os movimentos com perfeição, ela está totalmente afastada dele, pois o que a conduz é a ideia de realizar a perfeição. Seus movimentos obedecem a uma lógica mecânica, não emocional. Nina não sente, apenas pensa. Isso fica mais claro no momento que o coreógrafo da companhia Leroy (Vicente Cassel) lhe dá como tarefa se masturbar (que seria a possibilidade de sentir seu próprio corpo).

Nesta passagem lembro-me da fala do professor Jung (1985), na discussão da quarta conferência, quando este fala do problema da perfeição. Segundo ele, lutar pela perfeição é um ideal elevado. Ele orienta que devemos correr atrás daquilo que esta dentro de nossas capacidades, ao invés de correr atrás daquilo que jamais será alcançado. Jung afirma que “ninguém é perfeito”. Lembre-se da frase: “Ninguém é bom, somente Deus. E ninguém poderá sê-lo. Podemos modestamente lutar para nos completarmos, para sermos seres humanos tão plenos quanto possível” (JUNG, 1985, p.124).

Nestas primeiras cenas Nina mostra-se uma “garota doce”, expressão dita várias vezes por sua mãe. A protagonista vive num mundo infantilizado e inocente, apesar dos seus 28 anos de idade. Esta realidade é representada em seu quarto cor de rosa, repleto de bichos de pelúcia e com uma caixinha de música com a bailarina, que a mãe liga para que ela durma. Sua mãe também a veste de forma infantil.

Apesar dessa doçura, nos surpreendemos logo nas cenas iniciais pelo hábito que ela tem de se arranhar. Entendemos que a automutilação funcionar para ela, em termos simbólicos, como uma maneira de aliviar a angústia, seria a dor física expressando a dor da alma. Os arranhões são uma forma de contato mais íntimo que ela consegue com seu corpo.

Quando Nina dorme ela vive seu lado institivo (os arranhões, as marcas nas costas). Esse sintoma é a única forma de sua agressividade se manifestar, mas a sua mãe detentora do segredo tenta reprimí-lo, cortando e lixando suas unhas. A agressividade que deveria ser utilizada em legítima defesa está tão inconsciente que assume vida própria e acaba voltando para si mesma (ferimento fatal que Nina faz em si-mesma no final do filme).

Esse sofrimento da bailarina é fruto do papel vazio que representa na vida. “Uma persona atrás da qual seu ser real e autêntico, seu si-mesmo individual permanece oculto” (JUNG, 1987, p.34). “Através da persona o homem quer parecer isto ou aquilo, ou então se esconde atrás de uma ‘máscara’, ou até mesmo constrói uma persona definida, a modo de muralha protetora” (JUNG, 1987, p. 50). Observe que na medida em que Nina se identifica com seu papel (persona), tornava-se inconsciente do si-mesmo. Sendo assim, ela permanecia num mundo nebuloso e infantil incapaz de enxergar o verdadeiro mundo.

Nina faz esse movimento para se adaptar às exigências da figura materna. Desta forma ela assume uma imagem e tenta moldar-se ao que ela identifica como o ideal de filha para sua mãe, sacrificando muito seu si-mesmo. Isso, no fundo, é o que Jung chama de “alienações do si-mesmo, modos de despojar o si-mesmo de sua realidade, em beneficio de um papel exterior ou de um significado imaginário” (JUNG, 1987, p.49).

Nina vivia como um prolongamento da mãe, identificada com ela e com isso permanecia a “garota doce”, completamente dependente da figura materna e por ela sugada. Fica claro que Nina não poderia desenvolver sua própria personalidade enquanto não se desligasse da mãe. Essa relação simbiótica e ambivalente de Nina com a mãe apresenta características favoráveis ao desencadeamento de uma psicose. É a mãe cuidadosa e ao mesmo tempo tirana.

Vale relembrar que para Jung (1987), o processo natural de desenvolvimento psicológico consiste em realizar aquilo que existe em germe. Contudo, ainda que impulsionado por forças instintivas inconscientes, esse desenvolvimento pode ser influenciado, já que o ser humano é capaz de tomar consciência dele. Se no início, desenvolvemos potencialidades que nos permitem uma adaptação ao mundo em que vivemos, assumindo uma aparência do que esperam de nós ou do que desejaríamos ser, chegará o momento em que essas próprias forças exigirão a realização do modo autêntico que se é, incluindo o que não foi desenvolvido ou foi reprimido em detrimento da adaptação externa.

Outra cena bastante expressiva é do caminho de Nina para o teatro. Na viagem de metrô ela vê seu reflexo na janela, da mesma forma que num espelho, e o de uma pessoa parecida com ela, que mexe no cabelo no mesmo instante, como se reproduzisse a sua própria imagem. Na verdade o que ela vê é a imagem de uma nova bailarina da companhia, Lily.

No teatro, o coreógrafo da companhia, Thomas Leroy, anuncia que para o próximo espetáculo buscará uma nova rainha dos cisnes. Alguém que possa incorporar os dois cisnes, o branco e o negro. Ele revela que sua intenção é fazer do lago dos cisnes uma obra diferente das propostas mecânicas anteriores. Ele deseja tornar o espetáculo uma vivência extremamente verdadeira, intensa.

Nesta cena, mais uma vez, o espelho aparece. A imagem de Thomas está duplicada, provavelmente numa alusão aos dois lados que formam um todo: o claro e o escuro, o belo e o feio, ou, na linguagem junguiana, a persona e a sombra. O uso do espelho que, como veremos, é um dos elementos mais presentes ao longo do filme, causando-nos, muitas vezes, dúvidas se são imagens reais ou fantasias, tem a intenção de trazer a questão da projeção interna de Nina no meio externo.

Na cena seguinte, Nina está sozinha (na verdade ela está sempre só), esperando o diretor na intenção de se apresentar para pedir o papel. Enquanto espera ela escuta Beth McIntire (Wynona Rider), a primeira bailarina da companhia, quebrando tudo, pois recebeu a notícia que deverá se aposentar. Nina entra no camarim dela e rouba-lhe o batom. Isso demostra que ela não quer apenas ser perfeita como Beth, mas também mulher.

O seu grande desafio, nesta parte do filme, é mostrar ao diretor que também é capaz de fazer o Cisne Negro, seduzir, deixar de ser tão controlada, atacar (uma mulher sedutora, violenta, maliciosa, malvada). O Cisne negro é um papel mais difícil, pois coincide com o lado sombrio que Nina nega existir nela mesma. É necessária malícia e sensualidade para desempenhar o papel. Lily (Mila Kunis) é a personificação do Cisne negro.

Se o papel em questão fosse o cisne branco, Nina seria facilmente escolhida pela “Garota doce” que é. Por esse motivo, a protagonista apresenta maior facilidade em interpretar o papel: olhar doce, infantil, frágil e ingênuo: uma “princesinha”, como o diretor a chama. Neste momento Nina se encaixa no papel do Cisne branco.

odemos falar do “Cisne branco” como uma representação da persona de Nina, que intervém nas relações dela com o meio exterior, protegendo, segundo Jung (1985), o ego das exigências do meio. No caso da protagonista, notamos uma adaptação dessa persona, pois existe a identificação com o papel e a função de bailarina, assim como a exigência pela perfeição. Nina é a personificação da bailarina: delicada, bela, meiga e passiva.

O grande desafio é que Nina possa interpretar o cisne negro, que ela vá de encontro à própria sombra. Quanto mais esta “fonte inesgotável” (esta sombra) tornar-se consciente, menos ela irá dominar a personalidade de Nina. Se, de acordo com Jung (1987), a sombra também é um depósito de energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, fonte principal de nossa criatividade, a questão evocada é se a personagem conseguirá olhar para dentro de si e refletir honestamente sobre o Cisne negro que também habita sua alma.

Na cena seguinte ela está no ensaio representando o cisne negro e a nova bailarina Lily abre a porta fazendo um enorme barulho. Nina perde a concentração e cai ficando muito chateada. Outras cenas deixam clara a relação conflituosa entre Nina e Lily. Na verdade a protagonista sente-se ameaçada por Lily, já que esta possui todos os requisitos necessários para desempenhar o papel do Cisne Negro. Lily exala sensualidade, veste-se predominantemente de negro, não tem cuidados com a alimentação, faz uso de drogas, bebidas e cigarro.

Lily representa e desperta o lado sombrio em Nina, e esta relação faz com que a protagonista comece a entrar em conflito com conteúdos que são seus, mas que, no momento, são inconscientes e reprimidos com o auxílio do protecionismo da mãe dominadora. Tudo isso representa uma ameaça de cisão do ego. Jung (1987) nos fala do risco de se assumir o “outro” lado. De se confrontar com sua personalidade oculta (sombra) e assim tornar-se mais inteira.

Neste momento tem início aquilo que poderia ser considerado como uma paranóia. Nas cenas seguintes o foco volta-se para as visões dela. Como exemplo podemos lembrar da cena que ela vê alguém, do outro lado de um corredor comprido e estreito, que faz o mesmo gesto que ela, vindo em sua direção. Surpreendemos-nos quando vemos que esta “outra”, que a encara ao passar por ela, é “ela mesma”. A imagem funciona como um duplo, o mesmo rosto, mas, ao invés do casaco rosa e echarpe branca, apresenta-se mais sensual, com um vestido preto, decotado, com os cabelos soltos.

Na verdade o duplo aparece praticamente em todo o filme, sendo marcantes as questões mãe/filha, Nina/Lily, cisne branco/cisne negro, no entanto o duplo mais marcante refere-se ao lado pueril e doce de Nina, contrapondo com seus aspectos agressivos e sedutores.

Voltando para a cena em que Nina procura o coreógrafo com a intenção de pedir o papel, chama a atenção o fato de ela apresentar-se toda arrumada, de cabelos soltos e batom. Ela inicia seu discurso enfatizando os ensaios e sua técnica. Contudo, Thomas não se interessa pela fala de Nina, revelando já haver escolhido outra dançarina. Nina aceita a decisão, porém o diretor a provoca perguntando se ela não vai tentar fazê-lo mudar de opinião. Neste momento ele tenta chamar a atenção dela para o fato de que em quatro anos de companhia, ela tem se empenhado em fazer tudo perfeito, mas que nunca se entrega. Ele questiona sua disciplina e Nina rapidamente revela seu desejo de ser perfeita. Prontamente ele mais uma vez explica que a perfeição não é apenas o controle e sim deixar-se levar. A cena finaliza quando ele a beija e ela o morde.

O diretor a instiga com o beijo, despertando, sua raiva. De acordo com a teoria de Jung, Thomas poderia representar o princípio masculino que existe na psique da mulher, denominado animus. Este, para Jung (1987) é o mediador entre consciente e inconsciente que, em sua forma positiva, traz à mulher a capacidade de reflexão e autoconhecimento.

Thomas representa uma figura forte e poderosa, um Animus com capacidade de destruir ou elevar a personagem Nina. Ele apresenta-se como uma figura ambígua. Em algumas cenas parece querer tirar proveito de Nina, apresentando um potencial perigoso. Porém, ao longo da trama, foca seu interesse em despertar em Nina o seu melhor desempenho. Em meio a um jogo de sedução, mostra a Nina que o que ela tem a fazer é aprender a seduzir, enquanto ele mesmo a seduz.

Sai à decisão da escolha da bailarina e para a surpresa de todos na companhia. Nina é escolhida para o papel. Neste ponto vê-se, claramente uma mudança de atitude de Nina. Depois que ela é apresentada oficialmente como a Rainha dos Cisnes, começa a mudar. Ela já começa a mostrar sinais de incômodo do seu papel de garota doce e começa a dar sinais do desejo de trilhar o caminho rumo à mulher. Uma cena que fica bem nítida essa pequena mudança é a do bolo rosa que a mãe compra para as duas comemorarem a conquista do papel. Outra cena é a que sua mãe vai desabotar o vestido e ela fala que irá fazer sozinha. É a primeira vez que Nina tenta afastar os cuidados da mãe, que ainda insiste em tratá-la como criança.

Na cena do atropelamento da bailarina aposentada Beth, Thomas faz um comentário de que ele acha que ela fez de propósito, “… porque tudo que a Beth faz vem de dentro, de um impulso sombrio. Acho que é isso que a faz tão sensacional. É tão perigosa! Até perfeita às vezes. Mas também é muito destrutiva”. Como nos lembra Jung (1987), viver os aspectos sombrios pode ser destrutivo quando não integrados à consciência, isto é, quando não reconhecidos como parte integrante da personalidade.

Outra cena marcante deste processo é quando Nina, já na tentativa de se sentir, se masturba, ela é surpreendida ao ver sua mãe dormindo na poltrona. Com essa passagem podemos inferir que sua mãe está lá para lembrá-la do que “deve” ser feito, ou da “imoralidade” da sensualidade.

Percebe-se, com o evoluir das cenas que Nina inicia um processo de desligamento da mãe. Já não mais atende às ordens da mãe, não permite que a mãe veja suas costas, e já não acredita no que ela diz.

A falta de confiança da mãe é vista na cena em que a campanhia da sua casa toca e a mãe diz não ser ninguém. Nina vai verificar e, para sua surpresa, era Lilly que viera convidá-la para um jantar como forma de se desculpar. Nina, contra a vontade da mãe, vai para a noite com Lilly, na véspera do ensaio no teatro.

Neste momento podemos encontrar vários simbolos que apontam para o “mergulho”, para a “descida” a outra realidade (da sombra). Em uma casa noturna Nina conversa, bebe, deixa-se drogar, pois Nina vê quando Lilly coloca algo em sua bebida, dança.

Neste ponto o filme fica denso e daí em diante já não se sabe o que é real e o que é fantasia. Vozes repetem “garota doce”. No táxi, voltando para casa, Nina afasta a mão de Lilly que tenta tocá-la. Entram no apartamento e, novamente o espelho mostra uma imagem interessante, a “separação” entre as duas, Nina e Lilly, quando a mãe aparece e Nina a enfrenta mais uma vez. Nina coloca um pedaço de madeira na porta para impedir que a mãe abra e mantém um relacionamento sexual com Lilly.

No jogo de imagens, de repente, a pessoa que está sobre Nina é sua própria imagem que repete, de forma diabólica, “garota doce”, apertando o travesseiro contra seu rosto, num gesto de sufocamento. Ainda que sejam fantasias, esta é a realidade que Nina vive neste momento, pois são conteúdos inconscientes que irrompem na consciência.

De acordo com Jung (1987), a fantasia, enquanto produto da atividade imaginativa, expressa a atividade psíquica, a atividade da energia psíquica que só pode aparecer à consciência como imagens ou conteúdos. Assim, em termos simbólicos, a união homossexual, um “sonho erótico lésbico”, como disse posteriormente Lilly, poderia ser entendido como uma tentativa de resgate de uma parte da personalidade até então obscura, a “outra”.

Como resultado desta “vivência”, observamos nova mudança na atitude de Nina que indica seu rompimento com a infância. Diz à sua mãe que vai se mudar daquela casa, arremessa a caixinha de música, quebrando a bailarina, e joga todos seus bichinhos de pelúcia na lixeira.

Contudo, Nina ainda não é uma mulher e, a “outra” (a sombra), representada por Lilly, ainda lhe causa ameaça. Diante da escolha de Lilly como sua substituta, uma sequência de imagens mostra seu conflito de forma mais evidente e intensa: os espelhos da sala de ensaios e da oficina de costura, não refletem seus movimentos, mas a imagem da “outra”; seguindo as risadas que “ouve” de Lilly, Nina a “vê” transando com Thomas que, ao som do Cisne Negro, já não é mais Thomas, mas Rothbart, um bailarino da companhia.

Essa ameaça da escolha de Lilly como substituta faz com que Nina imagine o desconforto que Beth sentiu quando foi substituída. E, transtornada, vai ao hospital devolver o batom que lhe havia roubado. Interpelada por Beth sobre o que estaria fazendo ali, Nina diz que só queria ser perfeita. E Beth mostra que não é perfeita, que não é nada, perfurando o rosto e gritando “nada, nada”.

Quando Nina vai tentar impedi-la, já não é mais Beth, mas a própria Nina. Desesperada, vai para casa e, no escuro, ouve uma voz: “garota doce”. Acende a luz e ali está Beth/Nina ensanguentada. Do quarto de sua mãe outras vozes repetem: “é a minha vez, é a minha vez, garota doce… mamãe, mamãe…”, às quais se junta à imagem, vinda do espelho, de Beth/Nina ensanguentada. Completamente desnorteada, Nina vai para seu quarto e não permite a entrada da mãe, apertando-lhe a mão na porta. E daí ela se “transforma”: tem vertigem, vê sair asas em suas costas, seus olhos ficam vermelhos, as pernas se quebram e ela cai batendo a cabeça na cama.

Neste momento fica claro que Nina está doente, em surto psicótico. Trata-se, segundo Jung (1987), de uma identificação do “eu” com um elemento psíquico (a sombra). A bailarina vestida de rosinha já não existe mais. A vida desafia Nina a encarar sua psique polarizada

Nina teria de unir, na prática, sua própria psique fraturada entre a “menina” meiga e passiva, cujo quarto é cheio de ursinhos de pelúcia, e a mulher que foi reprimida pela mãe e por ela mesma. O desafio da individuação, contudo, não é isento de perigos.

Jung alerta para o perigo desses conteúdos vindos rapidamente a consciência, quando diz que “Tais processos têm particularidades de ser inicialmente subliminais, isto é, inconscientes, só alcançando a consciência de modo gradual. O momento da irrupção pode, emtretanto ser repentino, de maneira que a consciência é como que inundada instantaneamente por conteúdos estranhos e inesperados” (JUNG, 1987, p.51)

De fato, a estrutura egóica frágil, associada ao controle materno e à emergente necessidade de confrontar-se com a sombra (no papel de cisne negro), desencadeia em Nina um surto psicótico, inconscientemente ela se pune por meio de mutilação física, apresentando alucinações auditivas, visuais e táteis.

Nas cenas seguintes veremos isso claramente. No outro dia será a estréia do espetáculo. Nina está a caminho de vivenciar seus dois lados (cisne branco-persona e cisne negro-sombra). Porém, mais uma vez, a mãe tenta impedir que ela concretize seu objetivo, pois retira o relógio do quarto da filha, liga para o teatro e avisa que ela não se sentia bem. Porém, quando Nina acorda e percebe o que aconteceu ela sai apressadamente para o teatro.

Quando ela chega lá, vê Lilly se preparando para entrar no seu lugar. Nina, ignorando o que vê, entra no camarim e começa a se arrumar. Nina está completamente segura de si. Porém na apresentação do cisne branco, papel que, em príncipio, era perfeita para ela fazer, ela comete uma falha. Isso já mostra seu processo de transfomação. Ela já não era mais o cisne branco. Quando ela saiu do palco encontra Lilly em seu camarim, pronta para interpretar o Cisne Negro.

O confronto é evidente. Nina diz que agora é a vez dela e golpeia Lilly com um caco de espelho quebrado ferindo-a mortalmente. Mas não é Lilly quem Nina vê, mas ela mesma. Agora ela pode “incorporar” o Cisne Negro e o faz de forma perfeita. De volta ao camarim, para se preparar para o último ato, Nina se surpreende ao ver Lilly à sua porta parabenizando-a pela apresentação. Não há corpo, nem sangue no banheiro. Nina toma, então, consciência de que ela é quem está ferida.

O espelho agora reflete a sua própria imagem. E Nina, então, faz sua dança final. No último ato vemos a imagem de Nina ferida no centro do Sol. Sua forma circular aponta para a totalidade. Seus tons amarelados indicam a iluminação que, em termos psicológicos, significa consciência. Símbolo cósmico, coração do mundo, o Sol representa o ciclo de vida-morte-renascimento. Nina morre sim, mas em seu aspecto de pureza e ingenuidade, o branco agora está maculado, ferido. E a perfeição que tanto buscava, Nina alcançou.

É indiscutível que Nina tenha vivenciado uma jornada difícil e altamente simbólica, mas, infelizmente, ela não alcançou o ápice do processo de individuação, pois seu ego fragilizado sucumbiu à cisão e foi devorado pelos aspectos inconscientes e sombrios. “A meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais” (JUNG 1987, p.51).

No processo de Individuação, de acordo com Jung (1987), o ego é confrontado tanto com a realidade interior quanto exterior. O desenvolvimento ocorre quando o ego tem força para suportar a tensão entre os opostos, de maneira a atingir um equilíbrio dinâmico entre as instâncias inconsciente/consciente e mundo interior/mundo exterior. A fragilidade do ego dificulta e/ou impede que este desenvolvimento ocorra, sendo difícil suportar a tensão e consequentemente levando à ruptura com a realidade.

Foi justamente o que aconteceu com Nina. Houve uma cisão pelo fato dela não dispor de um ego estruturado capaz de encarar sua sombra e integrá-la. Caso houvesse esta estruturação egóica, o desdobramento desta história com certeza seria outro e não se daria por meio da cisão, mas pela integração dos elementos inconscientes e conscientes, ou seja, o autêntico processo de Individuação.

Triste, intenso, emocionante, Cisne Negro mostra como é importante buscar a proximidade e a familiaridade com todos os lados da nossa personalidade para não nos tornarmos vítimas daquilo que não aceitamos em nós mesmos.

BIBLIOGRAFIA:

JUNG, C.G. Fundamentos da Psicologia Analítica. Petropólis: Vozes, 1985.
JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente. Petropólis: Vozes, 1987.

RESENHA CRÍTICA POR:

Ivna Vieira, estudante do Curso de Formação de Psicologia Analítica, realizado pela PROFINT – Profissionais Integrados Ltda.