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Resenha Crítica III – FILME DON JUAN DE MARCO: ANÁLISE À LUZ DA PSICOLOGIA ANALÍTICA

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“Existem somente quatro perguntas importantes na vida:
O que é sagrado?
De que é feito o espírito?
Por que vale a pena viver?
Por que vale a pena morrer?
E a resposta a todas elas é a mesma: somente Amor”

Sinopse do filme:

Um jovem, de 21 anos, acreditando ser Don Juan, vai para Nova York se encontrar com seu amor perdido. Desiludido desse encontro, ameaça se matar. Nesse momento, é chamado o psiquiatra Jack, um senhor, que está prestes a se aposentar e, a partir desse encontro, mudanças e transformações em ambos acontecerão. Assistimos a um perfeito “encontro” entre cliente e terapeuta, uma relação de transferência e contra-transferência curativa, capaz de ratificar Jung que dizia “[…] o encontro terapêutico é como uma mistura de duas substâncias químicas diferentes: no caso de se dar uma reação, ambas se transformam.” (JUNG, 2004, p. 68).

Análise:

O filme começa com um jovem de 21 anos, vestido de Don Juan e se apresentando como tal, ameaçando suicidar-se, pois quer terminar sua vida gloriosamente (personalidade narcisista). O psiquiatra Jack é chamado para tentar fazê-lo desistir e sobe até ele em um guindaste (uma metáfora do que muitas vezes o terapeuta precisa fazer – subir, ou descer, até alcançar o cliente). Lá, o mesmo não apenas concorda com Don Juan mas se apresenta como Don Otavio de Flores (tio do esgrimista que ele havia solicitado) e ganha sua confiança. Em momento algum duvida que ele seja Don Juan, ao contrário, concorda e se mostra surpreso com isso, o que promove no cliente uma entrega, uma confiança. A partir dessa crença inicial de que ele realmente é Don Juan, o psiquiatra o questiona sobre sua tentativa de suicídio, valorizando seu personagem e questionando: “porque perder a esperança, já que o amor de Don Juan é eterno e não será negado?” – entrando no universo do cliente, falando a sua linguagem, reforçando suas crenças, conseguindo convencê-lo. Para Jung, a realidade psíquica é tão real para o indivíduo quanto o mundo concreto. O paciente está identificado com o arquétipo e o que irá ajudá-lo será a relação de transferência e contra-transferência entre ele e o terapeuta, promovendo as transformações.

O aparecimento da temática de Don Juan como tema central do filme aponta para a figura mitológica do Don Juan, um sedutor, símbolo da libertinagem – uma figura curiosa e ao mesmo tempo perigosa. Um arquétipo cultural do inconsciente coletivo. O arquétipo do sedutor, com uma personalidade narcisista e uma tendência a compulsão sexual. O “donjuanista” seduz o tempo todo e quando alcança seu objetivo, imediatamente se desinteressa, menosprezando os sentimentos alheios, porque na verdade o que lhe interessa é o desafio de conseguir o objeto amado e ao consegui-lo, seu desejo desaparece. A posse se torna o túmulo do seu próprio desejo.

O complexo de Don Juan se encaixa nas características da personalidade anti-social ou sociopata porque o que lhe importa é o prazer pelas conquistas. Existe uma fixação na figura materna (um complexo Materno), onde a pessoa não consegue integrar o princípio paterno. Fixa-se no “puer aeternus”, desconsiderando as funções da figura paterna que são: auxiliar a desenvolver a consciência, vitalizar o ego e dar limites éticos em relação a sociedade.

Seu pai era uma figura ausente e morre quando ele tinha 16 anos. Com isso, sua mãe, uma mulher de vários amantes (arquétipo da prostituta), entra para um convento (arquétipo da santa) na tentativa de se redimir da culpa pelas traições e também o abandona. Fica ao mesmo tempo sem mãe nem pai. Sozinho e perdido no mundo, apaixona-se pela moça com máscara da revista (objeto idealizado) e usa as artimanhas do livro “Don Juan de Marco” vivendo delírios e acreditando ser Don Juan. A máscara usada pelo personagem simboliza os objetos perdidos (a amante e o pai). Ele afirma que ao perder o amor da sua vida jurou não mais tirar a máscara que escondia seu rosto. Como pai e mãe exercem papéis fundamentais na estruturação do indivíduo e as influências posteriores se remetem a essas potências primordiais, o encontro com o terapeuta vai lhe restabelecer a relação com a figura paterna – a criança don-juan e o pai terapeuta.

A partir daí o psiquiatra se interessa particularmente pelo cliente, vendo a possibilidade de um grande aprendizado e luta para ficar com o caso. Mas, velho, cansado, prestes a se aposentar, o diretor do hospital direciona o caso a outro psiquiatra alegando a falta de força de Jack e o desinteresse do mesmo demonstrado nos últimos anos. Porém, o psiquiatra responsável pelo caso não consegue acessar o cliente e desiste, redirecionando para Jack, que insiste em manter seu paciente sem medicação evitando um embotamento dos seus delírios e apostando na possibilidade de trazê-lo à realidade durante suas poucas dez sessões. Numa tentativa de dar os comprimidos a Don Juan, este lhe pergunta: “para que esses comprimidos, para terminar com os delírios? Então creio que temos que tomá-los juntos, porque o senhor também está delirando”.

As sessões encantam o psiquiatra que se alimenta do romantismo de Don Juan, ouvindo as mais belas descrições sobre o amor e sobre as mulheres: “Eu não me deixo limitar pela minha visão… trago à tona a beleza que habita dentro delas”. Numa frase dita por Don Juan quando questionado se estaria em um hospital psiquiátrico, ele diz: “eu me permito olhar além do que é visível aos olhos”. A riqueza dos diálogos mantidos nas sessões descortinam a patologia de Don Juan e ao mesmo tempo a tediosa e pouco saudável vida do Dr. Jack. “Você, Don Octavio de Flores, é um grande amante como eu, apesar de ter perdido seu encanto e o seu sotaque”. Ao ser questionado pelo terapeuta sobre a honra da sua mãe, ele responde com agressividade dizendo: “Você precisa de mim para suportar sua própria vida” o que não deixa de ser um questionamento sobre as patologias: quem de nós está adoecido verdadeiramente? A intensa participação de Don Juan nas sessões reforça a ligação entre terapeuta-cliente e potencializam a confiança entre ambos. Numa das sessões ele pergunta ao terapeuta: “Eu nunca tiro a minha máscara em público…. Cairei em desgraça. Que faria o senhor se lhe tirassem a máscara?”.

As máscaras nesse filme têm funções diferentes para o paciente e para o terapeuta. Para o jovem paciente simboliza sua relação com o inconsciente, onde ele se identifica com a mulher mascarada da revista – sua anima; já a máscara do Dr. Jack refere-se a sua persona de profissional que pesava e o sufocava afastando-o da sua identidade e da vida amorosa. Aí percebe-se um exercício complementar dos papéis e contra-papéis de cliente-terapeuta mediante uma perfeita dinâmica de transferência e contra-transferência entre ambos.

O arquétipo do Curador-Ferido se torna muito claro neste filme, pois o terapeuta (um senex, prestes a se aposentar, melancólico, cansado, gordo, como se voltasse à terra) retoma aspectos do seu “puer” alimentado pelo romantismo, vitalidade, poder de sedução do seu cliente (um puer, jovem, esbelto, leve, destemido, vivendo “nas nuvens” como todo jovem).

No decorrer das sessões, o paciente vai aos poucos diferenciando aspectos do eu e do não-eu que estavam sendo aplicados de forma patológica e inadequada e se apropriando dos mesmos de forma adequada e direcionada. No exercício da sua função do eu, ele se permite aterrar, se atualizando com as funções terrenas e se tornando membro ativo da sociedade. Veste-se de forma adequada e revela-se dono de si mesmo em contraponto a sua postura anterior, onde era submisso aos delírios e viagens do seu inconsciente. Finalmente o protagonista entra em contato com seu mundo real, reconhecendo sua origem e sua trajetória de vida, retira suas roupas de Don Juan, a máscara e tem alta do hospital.

Paralelamente, Dr. Jack também retira as máscaras referentes a seu papel profissional que o impediam de ver além, dando asas a seu lado romântico, criativo e surpreendente que havia abandonado nas gavetas da rotina e do descrédito da vida. Cura-se com a mesma intensidade que o jovem cliente. Misturam-se na medida certa, dando e recebendo o que cabia a cada um, na medida do afeto e da confiança que estabeleceram nessa linda, apaixonante e amorosa despedida profissional.

REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:

JUNG, C.G. A Prática da Psicoterapia. Petropolis: Vozes, 2004
JUNG, C.G. Fundamentos da Psicologia Analítica. Petropólis: Vozes, 1985.
JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente. Petropólis: Vozes, 1987

RESENHA CRÍTICA POR:

Thelma Dória, estudante do Curso de Formação de Psicologia Analítica, realizado pela PROFINT – Profissionais Integrados Ltda.