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Artigo III – As bases filosóficas do Psicodrama

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I. O SURGIMENTO DA PSICOLOGIA EXISTENCIAL: UMA QUESTÃO DA METAFÍSICA E DA ANTROPOLOGIA

A Metafísica (a ciência depois da Física) surgiu com Aristóteles, na Grécia Antiga, quando este começou a falar do SER, do tempo, do movimento, fazendo estudos que ultrapassavam as evidências imediatas, ou seja, ultrapassavam a Física. Também com Heráclito surgiu a questão polêmica da temporalidade cósmica, da qual o homem participa. Porém, apesar desta evolução na época grega clássica, até o século 18 predomina no meio científico o Mecanicismo Moderno, pois com o surgimento das ciências Físicas, reduziram a visão do mundo a esquemas espaciais puros.

Segundo as idéias predominantes de Descartes e Newton, o tempo era visto mecanicamente, como uma forma de quantificar o movimento. Com o surgimento das Ciências Biológicas, surge o organicismo, que reintroduz a noção de temporalidade na natureza orgânica. Somente no séc. XVIII, com Darwin, surge o Historicismo, pois com ele se faz a passagem da temporalidade orgânica para a cultural. Assim, com o amadurecimento da consciência histórica é que surgem as Ciências Humanas, estas sem referência e sem modelo. Daí, ou elas apreendem o modelo naturalista – positivista – mecanicista do homem, ou retocam as concepções Metafísicas antigas (dos gregos), ou tentam encontrar um novo modelo.

No século XX o estudo da matéria imaginária, iniciado pela Psicanálise (sonhos, desejos), introduz uma temporalidade feita do imaginário, com recordação e influencia cultural. Assim, se descobre a dimensão simbólica, com as Filosofias da Linguagem.

Com o surgimento da questão antropológica na Filosofia, a ciência da natureza passa a ser secundária em relação à ciência do homem. Na virada do século XIX para o XX, surge uma crise na Metafísica, todas as concepções do homem passam a ser questionadas, sendo Immanuel Kant quem começa a sinalizar esta crise nesta época. Porém, mesmo já na Grécia Antiga, e em vários outros momentos da história, o Homem havia se tornado uma questão para ele mesmo, não uma solução. Sócrates, no seu julgamento, em Atenas, já declarava: “O que eu proponho é uma ciência Humana”. E já existiam na Grécia os terapeutas (sacerdotes), que interpretavam sonhos nos processos de cura…

Embora desde a Mitologia Grega e na Tragédia Grega o inconsciente já tivesse sido mencionado, só foi introduzido na Ciência no final do século XIX, porque antes, a idéia do homem era colocada na vida manifesta, dentro de uma perspectiva racional e da consciência. Havia uma dicotomia presente nas visões da natureza x homem. A natureza era vista como irracional, instintiva, determinista; o homem como racional, consciente, livre.

A Psicanálise no início do século XX nos mostra que o homem não é só isso, que não se pode estabelecer estas dicotomias, pois representam uma forma especializada de pensar. Lembremos o escritor brasileiro Guimarães Rosa: “O homem está no meio da travessia, nem num lado nem do outro da margem”, e completemos com a famosa frase do humorista Millôr Fernandes: “Uma imagem vale por mil palavras, mas para se descobrir isto, tem-se de falar”. No entanto, a posição determinista de Descartes afirmava uma dicotomia “mente x corpo”, como mostra a sua célebre frase: “Eu não preciso do meu corpo para existir, apenas estou nele”.

Bom, com a crise da questão antropológica na Filosofia, o homem se torna não mais uma “idéia”, mas uma interrogação, principalmente a partir dos fatos provocados pela Revolução Industrial. A automação, o anonimato das grandes cidades, provocam reações na idéia do “homem livre”, começando a surgir a percepção de que a sociedade progride em cima de contradições sociais (opressor x oprimido). Assim, a nova sociedade industrial construída desmente todas as idéias pré-concebidas do homem livre. Surge, então, a consciência de fatos novos:

– “O homem é contraditório e desigual”;

– A consciência não determina tudo o que acontece; pois existem condições obscuras, da ordem material da sociedade (forças econômicas), da ordem inconsciente, instintivas (forças irracionais) e da ordem cultural (forças culturais). Assim, surgem as idéias de MARX, repensando a Economia, as idéias de FREUD, com a noção de inconsciente e as idéias de NIETZSCHE, revisando a Cultura.

* O IDEALISMO E A DIALÉTICA DE HEGEL:

Este filósofo tentou justificar a História do Ocidente, através do resgate da razão e da consciência manifesta. Achava que tudo tinha um sentido. É considerado um Idealista porque afirmava uma legitimidade intrínseca da História, comandada pela racionalidade (a lucidez). Mas, seu maior mérito foi reformular o conceito de Razão, deixando de lado a concepção mecanicista e introduzindo a concepção dialética da razão. Para ele a razão é uma consciência histórica, cujo sistema é incompleto e aberto. A Dialética (surgida com Heráclito e Éfeso, no século VI AC. e resgatada por Hegel, na Modernidade) significaria: o desdobramento de uma verdade no seu contrário e a síntese desta verdade com o seu contrário. Como no esquema. A (-A) = A (síntese).

Na síntese, as diferenças não desaparecem, são absorvidas, não dissolvidas. Aponta que é na relação dinâmica de cada coisa com seus contrastes que a sua verdade se manifestará. A Dialética traz a idéia básica da mediação através dos contrários. Assim, Hegel tenta explicar tudo através do método dialético, levando ao extremo a visão Idealista. Por exemplo: para a Psicologia, a dialética pode ser entendida no processo de diferenciação do desenvolvimento infantil, onde o amor e o ódio (sentimentos ambivalentes) têm de ser confrontados e incorporados, para que possa surgir a maturidade em relação aos pais. Só se consegue pensar a Dialética pensando sempre as diferenças em relação dinâmica, sem estagnação, para se resolver as contradições. Na neurose, por exemplo, acontece a cristalização de oposições e contradições, não se vive o “estranho” e não se elabora a síntese, não se resgata. A dialética acontece no âmbito de cada ser e na relação com os outros seres. Por exemplo: EU – OUTROS: O Eu deve mediar o outro dentro de si. O outro sou Eu e o estranho, também.

II. O EXISTENCIALISMO DE SOREN KIERKEGAARD (1813 – 1855):

Ele reage ao Idealismo de Hegel e à tradição filosófica, defendendo o auto – posicionamento do ser, do filósofo, dentro do seu pensamento. Com ele, o filósofo se demite do discurso universal, passa a tratar de si e só é compreendido mediante a sua vivência. Inaugura na filosofia o cunho Existencial, com a sua obra “O Desespero Humano”. Repudia o discurso filosófico, alegando que este é o discurso de quem não consegue fazer a experiência mística da fé. Para ele, fazer Filosofia é esgotar as palavras para encontrar o vazio, onde o vazio pode atingir a experiência mística. Segundo ele, o incomunicável (a atmosfera, as metáforas) comunica mais do que as palavras, pois só quando estas se esgotam é que se consegue chegar ao alvo desejado. Quando reage a Hegel, reivindicando o indivíduo e alegando que a razão não esgota a existência, reivindica o caráter absoluto e transcendente do universal.

Kierkegaard foi muito preocupado com a fé porque em sua vida não conseguir ter uma fé sem conflito, resgatando para a filosofia as idéias religiosas. Enfatiza não ter Deus e não se conformar em te-lo perdido, o que é também uma característica da sociedade contemporânea, pois sabemos que a sociedade medieval vivia amparada pelos conteúdos da fé religiosa. Em seguida, a razão impera nos séculos XVII e XVIII, entrando em falência no século XIX. Kierkegaard enfatiza este momento, voltando a trazer o tema da união do Homem com Deus, no êxtase místico. O EU SINTO dele se opõe ao EU PENSO de Descartes. Por exemplo:

Segundo Kierkegaard,”Cristo veio para sentir. É o Deus que passa pela experiência. Não pode ser compreendido pelo sistema da Razão, só pelo sistema da experiência”. Para ele, “não se pode conceitualizar a existência humana, ela está acima de qualquer racionalidade ou análise. A experiência humana é irredutível”. Para opor ao “Penso, logo existo” (de Descartes), propõe “Existo, sinto, logo penso “(Kierkegaard) – “Onde não é possível pensar eu me encontrarei”.

Para ele, o homem é uma contradição viva, uma síntese do eterno e do temporal, o que gera o paradoxo.Estar diante de Deus é estar tomado pela angústia, em estado de pecado (é, segundo Fernando Pessoa, “é estar diante de uma parede sem porta”). Kierkegaard define três estados em que o homem pode viver:

1) Estético – O sujeito vive a existência vinculado ao gozo, ao aqui – e – agora. Escamoteia a angústia. Está sermpre tendo de partir da estaca zero, não é capaz de ir fundo e dar continuidade. Como exemplo, temos a figura do Dom Juan, que ama todas as mulheres e não se encontra consigo mesmo.

2) Ético – Ele tem um projeto moral e social amplo, mas tem uma vida interior limitada. Está no mundo do trabalho e do dever.

3) Religioso – Só tem como interlocutor à altura o próprio Deus, que não se manisfesta; é o homem que vive o absurdo, a solidão e a incomunicabilidade.

Sabemos, pela biografia de Kierkegaard, que este tinha uma ótima vida mundana, era sedutor, engraçado, vivia uma vida estética; no entanto, queria ter uma vida ética (casar, ter filhos, trabalhar, mas não conseguia), e tinha as ânsias de fé que sentia não conseguir cumprir (ambicionava alcançar a vida religiosa).

A Filosofia dele traz a relação Homem x Deus e a compreensão existencial da síntese entre: o eterno e o temporal, o ser e o não ser, a transcendência e o imanência. Traz a dificuldade de realização da síntese, que encerra as contradições e paradoxos da existência. A fé abre as portas para a relação do homem com o Absoluto, ela é uma abertura. O Absoluto é uma parte substancial do ser e, se o indivíduo se colocar em face dele, passa a ter seu ser determinado pelo Absoluto.

Ele segue uma dialética que não caminha para a superação, permanece no paradoxo. Não acredita na História da humanidade como a maior realização do homem, mas na subjetividade individual, vinda através da experiência religiosa. O homem se realizaria plenamente só através de situações aporéticas (negação da abertura), sem saída, sem abertura.

Para ele, o componente principal da fé não é a dúvida, mas a angústia. A dúvida é um critério e um discernimento da razão, não da fé. Por exemplo, Abraão não duvidou de Deus, ele teve angústia. A fé pede o absurdo, ultrapassa o limite do ponderável, é uma crença ilógica, da ocorrência do improvável. O século XIX é o século da angústia, pois coloca em cheque o Absoluto. Segundo Kierkegaard: “A angústia constitui o possível da liberdade e apenas essa angústia forma, pela fé, o homem, no sentido completo da palavra, absorvendo todas as finitudes, descobrindo todas a ilusões”.

Para ele, a possibilidade de escolha está na Angústia. O possível é muito mais amplo que simplesmente as escolhas. Tudo está em aberto, tudo é possível. A angústia principal é diante do passado e não do futuro, porque é na relação com o passado que se determina a relação com o futuro. A angústia nos obriga a nos reconhecer no passado, coloca em cheque a nossa liberdade, no esforço de incorporação da única evidência que temos de nós mesmos. A angústia é a possibilidade de acontecer algo no presente, que rompe o indivíduo com o seu passado. Por isso, extrapolar os limites, romper com o desconhecido, ter um comportamento heróico em relação às possibilidades, as situações clandestinas, tudo isto cria uma relação de angústia com o passado. Por exemplo: o experimentar drogas, o roubo, a traição, o assassinato, etc. No entanto, a angústia não deve ser escamoteada para que não evolua muito e aniquile o Ser.

O sêlo da nossa identidade é a nossa relação com o passado, que tem sempre de ser reciclado (nostalgia do lugar primeiro – compulsão à repetição freudiana, como uma saudade de um lugar onde nunca se esteve e nunca se vai estar). A crença de Kierkegaard é que o ser deve se abrir para o Mistério, sem tentar explicá-lo, pois ele não é para ser resolvido. A desmesura da razão é querer lidar com o Mistério, como se ele fosse um problema. Quer-se alongar o limite da razão, para se ter mais segurança.

Nas relações mais profundas é que desabrocham os Mistérios. Mas, Kierkegaard propõe que não se trate a angústia como algo desagradável, mas como abertura do próprio ser. “Existir é ser um ser culpável”, ou seja, é-se culpado por ser sempre um transgressor em potencial, estar sempre querendo ultrapassar as fronteiras do infinito.

Um dos principais temas de Kierkegaard foi o Desespero (que significa literalmente sem espera, sem esperança), que para ele é uma doença até a morte. O homem é um ser desesperado. Para ele, o cerne da interioridade é a experiência da fé, mas ele afirma que o homem é um ser sem esperança. O verdadeiro desespero é quando se desespera de si próprio, quando quer libertar-se de si próprio e, ao mesmo tempo, querer ser a si próprio.

O Desespero é uma resposta humana às dificuldades de conduzir a existência. O Desespero da finitude é condição da estreiteza do espírito humano, quando ele fica só no finito. O Desespero da fraquêza é não querer ser a si próprio. No entanto, para Kierkegaard, o EU é formado de Finito e de Infinito – é liberdade – está entre a categoria do possível e do necessário, nesta dialética. Enfim, o Existencialismo de Kierkegaard lançou as bases para o irracionalismo, o subjetivismo e o niilismo do século XX.

III. O EXISTENCIALISMO DE FIEDRICH W. NIETZSCHE (1844 – 1900):

Considerado “o pensador maldito”, apesar de ter tido formação religiosa e ser filho de pastor, vai romper com a Religião. É irreverente, iconoclasta e demolidor. Segundo ele mesmo, faz filosofia com um martelo (ou seja, quebrando, criando impacto). É um desconstrutor de sistemas, buscando perceber que, atrás destes, há sempre outra coisa. Resgata as pulsões, a libido, por trás das verdades cientificas postas. Demoliu os sistemas filosóficos e não colocou outro no lugar, pois desejou mesmo deixar à luz a realidade emergente escondida pelos sistemas. Sua função foi mostrar a realidade, desconstruindo as camisas de força lógicas, evidenciando os fatos que são encadeados dentro de um sistema lógico racional. Influenciou muito Michel Foucault, que se baseou na Genealogia Nietzscheana, orientando também a Antipsiquiatria Contemporânea e as psicoterapias existencialistas.

Para ele, as verdadeiras razões não são lógicas, mas afetivas. O homem sempre buscou a verdade, através de 2 veículos: a razão (a ciência) e a fé. E afirma: “Não me interessa colocar mais um sistema da verdade. O que importa agora é: porque o homem tem vontade de alcançar a verdade?”. Assim, a sua perspectiva é genealógica. Sua filosofia é perspectivista, onde tudo vale, a partir do ângulo que se considera. É relativização, obrigando a uma circularização constante do seu objeto de estudo.

A Genealogia é o estudo da gênese (busca da gênese, não através do fio lógico). Suspeita dos valores da cultura, colocando em cheque todas as certezas. Privilegia o latente ao manifesto. Para ele, o manifesto tem sempre uma conexão intelectual, racional, uma explicação que legitima e justifica aos fatos. Já o latente sempre tem um encadeamento afetivo, cronológico, que se dá ao curso da experiência do sujeito, movido pela vontade.

A Vontade é um conceito muito forte em Nietzsche, tanto quanto o do inconsciente, em Freud (ele herdou este conceito de Shopenhauer). Esta Vontade não é necessariamente consciente e é diferente do livre arbítrio. É uma força emocional irracional, parecida com a pulsão. A realidade latente, movida pela Vontade, comanda o sistema manifesto. Ex: a Vontade de verdade comanda a vida humana.

Porque o homem tem vontade de verdade? Porque ele morre de medo do DEVIR. Ele procura a fisionomia estável das coisas, porque é angustiante viver com a transformação incessante, com o Devir. Segundo ele, o poeta consegue viver com esta transformação da forma, a consciência poética é a única capaz de lidar com a verdadeira realidade, pois caminha com a evolução das formas simbólicas. Nietzsche falava muito de como a sociedade racionalista perdeu a dimensão trágica e a consciência trágica, pois é nela que o homem poeta habita, pois com ela o ser vive e ama intensamente, é o âmbito da ambivalência. É difícil o homem viver a condição trágica, só o vive poeticamente, no amor ou na loucura.

No seu famoso livro “Genealogia da Moral”, ele avalia os valores culturais em sua gênese, os valores favoráveis à vida e os que negam a vida. Descreve que o homem é, ao mesmo tempo, apolíneo e dionisíaco, baseando-se nos deuses da mitologia grega, Apolo e Dionísio. Toda produção de vida tem o apolíneo e o dionisíaco, e é esta instabilidade que é terrível para a consciência, é angustiante conviver com esta transitoriedade, tanto que o homem se limita. Porém, quanto mais estável uma pessoa está, mais impossibilitada está de criar e recriar.Vejamos as bases destas oposições baseadas as simbologia dos deuses gregos: 1) APOLO: deus da forma perfeita, da luz, da aparência, do equilíbrio, da medida; 2) DIONÍSIO: Deus do vinho, da vegetação, das formas subterrâneas, da obscuridade, da embriaguês, da desmesura, do êxtase e da loucura.

Na Natureza e no homem, quando culmina uma forma, ela já está se rompendo e fazendo surgir uma nova forma. Só que o homem tem a consciência, que o controla, temendo se auto-desintegrar. O homem se prende no apolíneo e teme a reformulação do dionisíaco. A consciência torna a mudança perigosa. Nietzsche afirma que reinventar (encarar as mudanças) é privilégio dos fortes, a maioria é rebanho e frágil. A Natureza protege os fortes, por seleção natural. Já a sociedade, protege o rebanho. Na hipocrisia cultural se tem um nivelamento pelo fraco, se substitui os fortes pela casta, que usufruem um sistema de privilégios (criando artifícios para fazer permanecer a verdade da casta).

O congelamento das formas (primazia do apolíneo) é uma atitude anti-vida, pois paraliza o progresso da cultura. E tudo que mobiliza as tensões fundamentais do processo criador é VIDA. Se o movimento da vida se atrelar à forma, ela se toma anti-vida. Segundo ele, a Cultura Ocidental é apolínea, e a Oriental acaba promovendo o Nirvana, uma forma apolínea de resgatar o dionisíaco.
Nietzsche crê que sua época é niilista e pessimista, porque o homem se movimenta dentro da existência em constante confronto com o Absurdo (viver, apesar de), estando sempre se preparando para o perigo e o risco. O homem niilista está sempre buscando a razão e, perdendo-a, cai num abatimento total, no aniquilamento. O homem já não crê mais nas utopias e cai no abatimento. Mas, ele propõe a saída deste aniquilamento através da coragem, da irreverência, da alegria e da ironia. Propõe ao homem enveredar pelos absurdos sem teme-los, propõe a GAYA ciência (a Ciência alegre, dionisíaca, do senso de humor).

No seu livro “Os Quatro Grandes Erros”, (in “Crepúsculo dos Ídolos”), crítica a moral, a religião e a idéia de causalidade. São para ele os quatro grandes erros:

1) O erro da Inversão da causa com a consequência – Fica-se preso aos sintomas, às manifestações epidérmicas, não se vai à profundidade. O fascínio das conexões é tão grande, que se passa por cima dos conteúdos. Propõe que nos libertemos dos grilhões do macête, de colocar uma regra prévia a um acontecimento, fora do seu contexto específico. E propõe a “transvaloração de todos valores”, ou seja, a inversão nos preceitos morais e religiosos. Por exemplo: O homem não se torna feliz porque fez uma coisa boa; porque ele é feliz é que faz coisas boas. A felicidade não é uma meta que se mereça atingir, se forem feitas coisas boas.

2) Erro de uma Causalidade Falsa – O Eu é a causa mais fantasmagórica, não existem causas espirituais. São os pretensos motivos, que passam como verdadeiros, explicados sempre pelo Eu. Por exemplo, o dilema: “Eu quero, ou eu não quero alguma coisa”. O “não querer” pode ser uma forma sintomática de um não poder ou de um não saber. A causa imediata acaba dominando, pois o “eu não quero” impede reflexões mais profundas, escamoteia a realidade.

3) Erro das Causas Imaginárias – O indivíduo não pode viver sem causa, pois não se sente seguro. O novo, o estranho, fica excluído como causa. A causa imaginária fica colocada na ausência de causa, por imposição de um instinto causal. Daí ele questiona o limite da razão, propõe a convivência com a ausência de razões para muitas causas, pois são estranhas ao conhecimento. Por exemplo: as histéricas foram interpretadas como bruxas, causas pseudo-morais foram atribuídas ao comportamento delas, como castigo, como expiação dos pecados.

4) Erro da Vontade Livre – Existe uma outra vontade, a pulsional, que independe da consciência, prenuncia o inconsciente. Atribuindo o livre arbítrio ao homem, dá -se a ele a responsabilidade e a culpabilidade dos seus atos. Critica a Psicologia racionalista, que se baseou no estudo do livre-arbítrio consciente. Nietsche afirma que a culpa não está só ligada à questão do livre arbítrio, o que mais tarde vai ser tema de estudos Freudianos. Na “Genealogia da Moral”, ele afirma que a culpa é a raiva embutida, a impossibilidade de se posicionar diante de um obstáculo faz com que toda esta força se volte contra o indivíduo. A culpa é ressentimento, é o descontentamento consigo, é o remordimento. Existe uma culpabilidade arraigada no homem, que está nos arquétipos, provocada pela possibilidade constante de transgredir. O ser humano tem uma força que é maior que o seu limite ou suas fronteiras. Ou o ser humano sublima, ou ele transgride. A culpa vem da impossibilidade de sublimar. Sublimar é abrir um possível, que passa através do limite. Estar na iminência de transgredir gera culpa, que só é resolvida no domínio simbólico, sublimando. A Sublimação passa por baixo do limite, não o transgride.

Nietzesche presenciou o intenso sofrimento humano com a perda da fé em Deus e a consequente desvalorização dos antigos ideais. Afirmou ser Deus uma hipótese criada pelo homem, que reduz a procura do sentido da realidade. Para tal ele tenta rebelar-se contra a moralidade e a culpabilidade, colocando-se além do Bem e do Mal. Propõe uma guerra contra todos os valores aceitos, nos ensina a descobrir a mentira e a hipocrisia latentes. Para ele, a fé cristã seria o refúgio dos fracos, visto que tal moral seria incapaz de conduzir o homem à auto-perfeição, uma vez que se apresenta como “tábua de salvação”. As ditas virtudes cristãs esconderiam as fraquezas e as necessidades humanas (ressentimentos, desejos de superioridade, etc).

Propõe então uma moral que seja representante da autenticidade, da alegria, da Vida, da felicidade, do auto-domínio e da auto-conhecimento, que não negue ou contrarie a Vida. Acrescenta que a superação de impulsos, sublimando-os, canalizando-os para uma atividade criativa, seria o processo dos mais fortes, do que ele chamou de Super-Homem. Enfim, Nietzsche afirma que, ao ser humano, ninguém pode conferir suas propriedades. O sujeito se dá suas próprias razões e normas. A faticidade do ser não pode ser desligada da faticidade de tudo que foi e será.

Ele não culpabiliza o homem por coisas que acontecem dentro dele, confere uma inocência do Devir e desenvolve a noção do Cinismo, como a ausência da culpa. Propõe a libertação de toda estereotipia do mundo. Mas, isto não significa retirar do homem a sua capacidade mítica, de sonhar, etc. Condena a primazia da razão, que quer comandar tudo. Destrói o mito de que a inteligência humana é capaz de traduzir tudo que acontece. O intelecto para ele é um instrumento que garante sobreviver nas condições precárias da vida instintiva, já que os recursos instintuais do homem não são suficientes. A intuição (a apreensão mediante a vivência) é que seria a realização do humano por excelência, a verdadeira criação humana. Lamenta que a civilização supervalorize o intelecto e atrofie a intuição. A cultura operativa abafa a criatividade, a capacidade de criar conteúdos interiores válidos por si, independentes do pragmatismo da sobrevivência.

Propõe uma comunicação intersubjetiva, de intuição, e defende o homem estético, que vive da sua sensibilidade poética, que usa metáforas, pois para ele é o que se realiza mais. Na sua expressão “O homem está pendente em sonhos sobre o dorso de um tigre” ( in “Verdades e Mentiras no sentido Extra-Moral” ) ele quer dizer que o homem é um todo, que resgata a totalidade (corpo e mente), mas descansa em cima de uma força (a natureza, seus instintos, seu inconsciente), que ele desconhece. Afirma que o sentido real é uma metáfora, e a partir dele se desencadeia toda uma reflexão sobre o simbólico, sobre o mito, sobre a linguagem metafórica e intuitiva, desenvolvida posteriormente pela Psicanálise e pelas Psicoterapias Existencialistas.

Enfim, ele propõe o aprimoramento das possibilidades do Ser da pessoa, o desenvolvimento de uma Vontade de Potência. Para ele, na base de toda cultura que evolui estaria esta Vontade, que conduziria os homens e seus esforços pelo desejo de primar, aperfeiçoar e obter poder. Assim, os êxitos políticos, a arte e a filosofia seriam explicados por esta Vontade, assim como os valores da beleza, da bondade e da verdade seriam funções desta Vontade. Ela representaria o desejo do homem de superar a si mesmo e expandir sua força potencial. Através desta Vontade, propõe demolir o niilismo e o imobilismo europeu presentes do final do século XIX.

A partir da influência de Nietzsche, a filosofia do século XX é invadida pelos temas da Revolta, do Absurdo e do Nada. O inconformismo passa a ser uma força no Ocidente, que não justifica mais o passado. A última tentativa filosófica sistêmica de justificar racionalmente o passado havia sido a de Hegel, e não atendia mais às evidências. Depois do Niilismo do final do século XIX (sentimento marcante de desespero, desamparo e desesperança), surge a revolta, que encaminha o homem para a liberdade, no início do século XX.

A Psicologia deve a Nietzsche a preocupação com a profundidade introspectiva, a revolução do pensamento cultural do século XX, o despertar para uma consciência mais aguda do nosso mal estar, do nosso ser doente, e das nossas possibilidades e potencialidades. Buscou tudo que seria estranho e questionável no existir, o oculto, o proibido e o banido pela moral.

Atualmente, a nossa cultura tem como fisionomia o cosmopolitismo, a globalização, o universalismo, a internacionalização, a burocracia e a tecnologia, que expressam uma racionalidade auto-suficiente. Não existe uma proposta ou missão determinante que nos tenha sido legada do passado. A História é apenas uma grande memória coletada, de onde se faz regates fragmentados, característica do Pós-Modernismo. Não existe uma continuidade histórica entre o passado e o presente, o que observamos é um grande hiato. A Cultura Ocidental está numa grande crise, e determinadas soluções se esgotaram. Porém, do ponto de vista do desenvolvimento da humanidade, consideramos que foi ótimo que isto acontecesse, embora seja duro abrir mão da Utopia, da idealização. O século XX não teve mais Utopia, muito menos terá o XXI. No final do século XX fomos capazes de fazer uma guerra fria, não mais revoluções. Supomos, enfim, que as propostas atuais têm de ser inventadas, no século que se inicia.

IV. O SURGIMENTO DA FENOMENOLOGIA:

A Fenomenologia surgiu como crítica à tradição e ao Racionalismo predominantes até o século XIX. As primeiras teorias psicológicas do Associacionismo se baseavam na Razão como base para a compreensão da emoção, pois julgavam que todo conhecimento podia ser inteligível. A Fenomenologia tenta renovar a compreensão do ser humano, criticando os modelos de conhecimento vigentes e propondo um novo método.

Foi criada por Edmund Husserl (1859 -1938), matemático por formação, que se tornou filósofo a partir de um problema de geometria. A partir dele surgiram três vertentes articuladas da Fenomenologia: 1 – As filosofias Existenciais (Heidegger, J.P. Sartre, Merleau Ponty, Jaspers); 2 – As Pesquisas Lógicas; 3 – A Epistemologia das Ciências Humanas.

A Fenomenologia é um projeto de exposição de um método, mais do que uma exposição de teses. Não pensa em catalogar o real, mas em explicitá-lo e descrevê-lo. Para Husserl, é uma tarefa rigorosa, incompatível com o Psicologismo. Descrever fenomenologicamente faz eclodir a rede que envolve o sujeito e o objeto, as relações sócio-culturais, etc. O que descreve é envolvido pelo que é descrito, numa relação muito íntima, que ele vai chamar de Intencionalidade. Para esta noção, “toda consciência é consciência de alguma coisa”, não existe a separação entre sujeito e objeto.

Para Husserl, o mundo não é apenas o conjunto de representações que faço sobre ele, como afirmava o Idealismo. O mundo é contemporâneo à minha consciência dele, de forma correlata. A consciência não existe independente e autônoma como sujeito, ele depende da relação com o objeto e só existe a partir dele. Não há como separar o laço que une a consciência e objeto, na Intencionalidade. Toda consciência é essencialmente intencional – um movimento para fora, espontâneo, um registro pre-reflexivo. Considera uma ilusão a vida íntima, isolada, interior.

Propõe uma “volta às coisas mesmas”, mas sabendo que a coisa em si é impensável. O que se pensa e se percebe é a correlação (a conexão íntima, o laço) da coisa com a consciência que a percebe. O Fenômeno é a manifestação da coisa mesma, sem projeção subjetiva, aquilo que aparece, que se mostra.

Através da sua noção de Intersubjetividade ele explica como as consciências se relacionam entre si. Para ele, o sujeito está sempre na verdade, mesmo que parcial, dependendo da sua relação, do laço que ele estabelece com o fenômeno. O ser é captado por limitações (da perspectiva), do laço entre os sujeitos. Para o homem, o mundo se dá como limitado à esta perspectiva. Na alucinação, por exemplo, temos mais um modo do mundo se dar ao sujeito, uma experiência diferente, um outro modo de acesso ao mundo.

Para Hussel, a tarefa da Fenomenologia é elucidar o puro reino das essências. É essencial a busca das essências, mas para ele a essência não é introspecção. Ao atingir o sentido de um fato, deve – se fazer uma Redução Fenomenológica, deixando-se de pensar de modo introspectivo sobre o fato, de forma psicologicamente. Na atitude fenomenológica, procura-se recolher o que as coisas mesmas dizem, deixar que elas falem, e não o investigador pôr uma fala interpretativa sobre elas. Os fenômenos se mostram, dizem o que são. A percepção de um fato se dá com sua essência, simultaneamente, com o seu significado.

Para os fenomenologistas, a essência é o SER da coisa, não a “coisa em si “. Ela é a armadura inteligível do ser. As essências não são eternas, nem absolutas, elas são temporais e finitas. Pode-se refazer a experiência da essência descobrindo-a com outros sentidos, num outro tempo, pois tudo pode se esvair no movimento da História. Apesar disto, o sentido transcende a História, que não a contradiz e faz compreendê-la melhor. O sentido mantém uma certa identidade no decorrer da História. Para Husserl, o Sujeito é transcendental, é um pólo subjetivo, uma condição de possibilidade, produtor dele mesmo.

Assim, para ele o fenomenólogo deve buscar na sua atitude uma Redução Fenomenológica, uma tentativa de radicar a intencionalidade, um processo para superar, esforço para captar e explicar mais puramente o “laço”que une a consciência ao mundo. É a tentativa de apreensão da essência, suspendendo qualquer racionalização à priori, evitando qualquer psicologismo.

V. O EXISTENCIALISMO E A FENOMENOLOGIA DE MARTIN HEIDEGGER (1889-1976)

Heidegger descreve e analisa radicalmente o Ser do Homem. Afirma que o homem é a condição de desvelamento do ser, um ente que interroga o sentido do seu ser. Propõe a passagem para uma Fenomenologia Hermenêutica, não transcendental, não como consciência redutora, ao contrário de Husserl.

Afirmou que o ser no mundo já é parte do espetáculo da essência. A essência reside na forma da existência. Antes do olhar teórico, já existe algo prévio, o SER – AÍ, ou seja, o DASEIN, a existencia em sua faticidade. Assim, o Dasein é o campo da verdade do ser. O homem é abertura, produtor de significação. Na dimensão do ser no mundo, o homem é o acontecimento. Enfim, DASEIN = SER AÍ = SER – NO- MUNDO.

Heidegger afirmou que ser homem é ser a interrogação pelo sentido. Entre todos os entes vivos, só o homem é o questionador. Heidegger não recusa a razão, mas não afirma que o ser se funda sobre o pensamento. Acha que o pensamento é que se funda sobre o ser, ao contrário da filosofia cartesiana. A interrogação deve ser feita a partir do ser em questão, não mais a Fenomenologia ser feita como descrição do que se dá ao olhar (como fazia Husserl). Deve ser feita, para Heidegger, uma interpretação que supõe a presença do próprio intérprete dentro dela (que seria a base da Hermenêutica).

Heidegger criticou o fato de todos os saberes sobre o homem não o tornarem mais próximo ontologicamente de si mesmo, na nossa era. Pré-otonlogicamente, já somos compreensão de sermos. A Hermenêutica deve lançar mão dos nossos recursos naturais, do ser pré-ontológico, para compreender o ser.

O que significa Hermenêutica? Significa decifrar um enigma, a arte de interpretar, de compreender os sentidos das narrativas, dos discursos. (Hermeneia = condução de uma mensagem; Hermes = Deus – Correio, responsável pela transmissão das mensagens no Olimpo). Heidegger propõe uma análise existencial do Dasein.

O Dasein não é um sujeito no meio do mundo, ele é o seu mundo. O conhecer é um modo de ser no mundo, entre outros. O Dasein possui tres estruturas existenciais ou estados de ser no mundo: 1) Através do sentimento de situação (da tonalidade afetiva); 2) Através da compreensão (que não é razão, é o projeto do ser para o futuro); 3) Através da discursividade, da narrativa (da teoria, da razão).Estas três estruturas se articulam entre si.

Para Heidegger, o ser pode optar por uma existência alienada, inautêntica, que se agarra ao presente, ou por uma existência autêntica. Nesta última opção, o ser deve estar atento aos cuidados cotidianos, mas não se descuidar do “grande cuidado”, revelado pela Angústia, que o leva a uma preocupação com o mundo. Esta o leva ao momento agudo da Angústia do Nada, onde o mundo lhe aparece como uma totalidade, um pêso. Só a partir do enfrentamento deste Nada ele pode passar a existir significativamente como ser-no-mundo. Paradoxalmente, somente quando tudo perde sentido, ganha sentido.

Para Heidegger, a Angustia não tem objeto, manifesta o Nada, a insignificância mundana, quando as significações banais do mundo são reduzidas. O que leva á Angústia é o próprio ser-no-mundo, desenraizado e sem segurança. Enfim, a analítica existencial proposta por ele visava conhecer o verdadeiro sentido do Ser em geral (análise ontológica) a partir da análise do ser concreto.

VI. A FILOSOFIA EXISTENCIAL DE JEAN PAUL SARTRE (1905-1980):

É somente com Sartre que a Filosofia Existencial se afirma e se torna mais conhecida, como uma corrente que aborda com prioridade a questão da existência humana, embora no século XIX Kierkegaard já tenha sido considerado “o pai do existencialismo”. No entanto, o Existencialismo tem alguns precursores ilustres, que criticaram o racionalismo e foram perplexos diante dos mistérios da existência, bem antes do séc. XIX. Entre eles, citamos Sócrates, Jó, Santo Agostinho e Pascal:

1) Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo, que conhecerás ao outro, ao mundo e ao universo”, e “minha questão não é a natureza, são os homens”, foram frases célebres desde grande filósofo clássico. Por outro lado, mesmo defendendo o conhecimento do homem, Sócrates acreditava ainda que a existência humana podia ser racionalizada, o que não o torna um existencialista.

2) Jó – personagem bíblico: “Meu sofrimento não tem razão ou sentido”. Ele descreve sua experiência de angústia, cuja explicação racional inexiste, que foi tão bem analisada por Jung, já no século XX, no seu livro “Resposta a Jó”.

3) Santo Agostinho: filósofo que se preocupou em estudar a interioridade das experiências da existência: “a vontade do homem é sempre dividida, conflituosa”.

4) Pascal: filósofo do séc. XVII, que também se dedicou a estudar a angústia, o desespero e os demais sentimentos humanos.

Voltando a Sartre, suas principais idéias sobre o Existencialismo, são: 1) todo pensamento brota da existência; 2) a existência é aquilo que iremos refletir; 3) o pensamento é uma experiência vivida (é a existência que coloca problemas para nós); 4) nós estamos sempre envolvidos com o nosso conhecimento; 5) todo pensamento está limitado pela existência; 6) e finalmente sua famosa afirmação: “a existência precede a essência”.

Para Sartre, os homens sistematizam a existência e, embora a achem inexplicável, tentam explicá-la. Ele defende o uso de uma atitude mais prática e vivencial do filósofo, não apenas teórica. Filosofar, para Sartre, é fazer dialogar o sistema com a existência, sabendo que o ser existente jamais se deixa apreender totalmente.

O existencialista se defronta com um problema sobre o qual não existe uma resposta final concluída. E descobre uma visão bastante angustiada do ser humano; e que existe, na existência, sempre algo inexplicável: o drama da experiência humana. Pois nenhum sistema racional consegue explicar o absurdo da existência e do sofrimento humano, que é vivido. Ou seja, a História, a Ciência, são construtos racionais para organizar e afastar a possibilidade de desintegração e do absurdo.Mas, Sartre acredita que acima da Cultura e da Ciência, continua a existir o caos e o absurdo. Por isto, o existencialista não procura mais a ordem ou o sistema final, pois a experiência da vida é irredutível. Acima dos sistemas de verdades estabelecidas existe a liberdade humana. Assim, a linguagem do existencialista passa a ser menos conceitual, menos explicativa, mais literária e fenomenológica.

Para ele o homem está “condenado a ser livre” – tem a sua liberdade radical. É um ser em aberto. Não se tem mais a razão, mas o sentido, que é conferido pelo homem. Este sentido não é dado no mundo para que o homem o encontre, não existe em essência a priori, ele tem de criá-lo, através da sua ação. Assim, resta ao homem inventar o sentido do absurdo em que ele vive. O existencialista se coloca, portanto, em oposição a uma visão essencialista das coisas e em oposição ao filósofo essencialista.

E o que seria uma filosofia Essencialista? A essência para estes filósofos seria um núcleo permanente, originário, aquilo que faz com que algo seja o que é. Segundo os filósofos essencialistas cristãos, foi Deus quem colocou a harmonia e a essência no mundo; pré-existem ao homem o bem, o mal, a justiça, etc. Já o filósofo essencialista ateu afirma que a essência não foi dada por Deus, mas por uma razão ordenadora global. Ambos, porém, nos remetem sempre a uma coisa “fora” que cria as coisas, pois para eles a essência precede a existência.

Todavia, para Sartre a essência é pura comodidade verbal. Para ele a linguagem se remete a ela mesma, não a alguma essência ou alguma verdade. O que falamos, sempre se enraiza numa experiência não dita. A linguagem é um passo posterior e artificial, a compreensão prévia á linguagem é mais pura. O nosso conhecimento é muito mais do que conceituar. O ser se expressa através do sujeito, mas não é nunca uma expressão objetiva. Nós intuímos as essências, não as conhecemos.Não existe essência rígida e racional, como não há nada anterior ao homem, bem ou mal. Sartre propõe que pensemos a existência junto com o sujeito, pois ela depende dele. E defende a primazia da linguagem poética e intuitiva para a imersão na realidade.

Para Sartre, a essência do homem é existir. Ele vem do Nada e a experi6encia da possibilidade do Nada é sempre convivida pelo homem. São características da sua filosofia:

1) Filosofia do Absurdo: se não tem Deus para criar o homem e a sua essência, ele está solitário e desamparado, sua existência é absurda, pois não tem uma razão última que o preceda.E o maior absurdo é a morte.

2) Filosofia da Liberdade: o homem só é livre porque não tem uma essência definida a priori, el pode ser qualquer coisa, assumir radicalmente a sua liberdade.Surgem daí as questões: a) da criação do seu Projeto de vida; b) da criação do seu compromisso histórico com a humanidade; c) da criação dos seus valores.

Para Sartre, o Bem é o ato de escolher, não os valores morais que o determinam. E o fato de ter de escolher sempre leva o homem a procurar o melhor para si (mas o melhor não entendido no sentido moral). Tudo que o homem escolhe é um bem para ele naquele momento, pois o mal é não escolher. Quando ele não escolhe está num estado de “má fé”.

Para Sartre o homem é responsável pelas suas escolhas, esta é gratuita, não existe uma razão última que a justifique anteriormente, como melhor ou pior. E isto gera angústia. Portanto, a angústia para Sartre vem da liberdade, ao contrário de Heidegger, que afirma que ela vem do Nada. A escolha em Sartre é feita no contexto ou situação do ser-no-mundo, política e social, no seu momento histórico. A escolha e a angústia vêm do reconhecimento humano dos seus limites. O homem é o autor do seu destino, a existência não tem um significado a priori, cabe a ele dar o seu sentido. Por isso, Sartre vê sua filosofia como otimista e não pessimista, como muitos a apontam. Acredita no potencial humano para criar e transformar a realidade através do trabalho e do seu compromisso com a coletividade, com a humanidade em geral.

A questão do vinculo Eu -Tu ou a questão do OUTRO também foi muito trabalhada por Sartre, em seus livros filosóficos, romances e peças teatrais. Na sua peça “Entre Quatro Paredes”, ele afirma que “o inferno são os outros”. Segundo Sartre, estamos obrigados ao olhar do outro e necessitamos dele, o que é para nós um suplício. Cada consciência é um centro de referência único, mas o outro não me aparece como um objeto, mas sim como uma nova consciência, que tem o poder de reorganizar tudo ao seu redor. O OUTRO é o centro de um outro mundo, que me vê.E a única maneira de ver a si mesmo é através deste OUTRO. Eu vejo o OUTRO a partir desta experiência contraditória da fusão e da separação. Ao mesmo tempo, eu sou este Eu que o OUTRO conhece, e também não posso determinar o que eu sou para o outro. Sou objeto do olhar do OUTRO e sujeito de todas as minhas coisas. No olhar do outro, não sou dono da minha imagem, ele me congela, me fixa, me constitui, me faz me ver, me dissolve, me nega e me afirma.Daí o meu sofrimento e angústia diante do seu olhar.

Enfim, Sartre fundamentou suas idéias em Carl Marx, Husserl e Heidegger, autores que tem em comum o papel ativo do indivíduo na construção do seu próprio destino. Os pontos básicos estudados por ele foram: o ser e o nada, a consciência e a transcendência e os caminhos da liberdade.

Para os existencialistas, a capacidade que o homem tem de criar a si mesmo faz parte da condição humana, não da natureza humana. Enquanto que para os Existencialistas é o homem que tem de criar as suas potencialidades, para os Humanistas o homem tem de desenvolver as suas potencialidades. Os teóricos Humanistas falam da descoberta do eu e os Existencialistas da criação de uma subjetividade. Assim, afirmamos finalmente que o Psicodrama não é uma abordagem Humanista, mas sim fenomenológico-existencial.

Como entra o Psicodrama de Moreno neste contexto filosófico?

O Psicodrama é uma das terapias de base fenomenológico-existenciais, tanto quanto outras terapias vivenciais, como é exemplo também a gestalt-terapia. Estas abordagens vivenciais têm como base ajudar o cliente a experienciar a sua existência, buscando a compreensão fenomenológica do ser existente. Partem do princípio de que o homem é construtor de si próprio e do seu mundo. Buscam fazer o indivíduo alcançar uma existência autêntica, espontânea e criativa. Nestas abordagens, a técnica e a teoria são secundárias em relação à pessoa e à relação terapeuta e cliente.

Nas abordagens fenomenológico-existenciais busca-se o desenvolvimento da intuição, da liberdade e da sensibilidade, e não se utilizam enquadramentos diagnósticos psicopatológicos. Vê-se o neurótico como alguém que ainda não encontrou seu caminho de crescimento, que se submeteu ás conservas culturais, cristalizou papéis e deixou de ser espontâneo criativo, perdeu o sentido da sua vida. Enfim, para o Psicodrama, o neurótico tem dificuldade de viver o aqui-e-agora e o Momento, pois falsifica o fluxo das suas vivências. Os existencialistas e psicodramatistas concebem o homem como um ser inacabado, em eterno devir.

Enfim, as terapias vivenciais de base fenomenológico-existencial, tem como objetivo fazer com que o indivíduo possa resgatar a liberdade de poder utilizar suas próprias capacidades para existir, para reaprender a utilizar a sua liberdade de forma responsável, para ele ser o que ele é. Para tal, promovem uma relação terapêutica que privilegia o Encontro Existencial Eu-Tu, que recria e permite o Encontro na vida, em outras relações sociais.
Segundo ALMEIDA (1988:39),

“as psicoterapias de base fenomenológico-existenciais procuram, a partir da Análise Existencial de Ludwig Biswanger (1881-1966), que por sua vez inspirou-se em Freud e Heidegger, o sentido da vida e da luta do homem (…).Pretendem ter uma dimensão maior, além dos níveis psicológico e psicopatológico, estabelecendo como metas a busca de referências éticas, espirituais, filosóficas e axiológicas.Surgiram como oposição ao determinismo das terapias chamadas científico-naturalistas ou explicativo-causais”.

Moreno pretendeu que cada sessão psicodramática fosse uma experiência existencial. Através do discurso Moreniano, podemos encontrar os conceitos básicos da Fenomenologia Existencial, tais como: existência, ser, temporalidade (aqui-e-agora), espaço, encontro, liberdade, projeto, percepção, corpo, imaginário, linguagem, sonhos, vivência, etc.

No método fenomenológico em geral encontramos o método psicodramático em seus princípios básicos, quando, por exemplo, defende o exercício da intuição, da redução fenomenológica, da arte da compreensão, da atitude ingênua diante dos fenômenos, sem definições a priori. A atitude ingênua, a inter-subjetividade a intencionalidade e a intuição estariam na relação Eu-Tu do Psicodrama, e não na relação Eu – Ele, Eu – Isso ou Eu – aquilo.

O método psicodramático também é um método sempre aberto a novas investigações, como é o fenomenológico. Para Moreno, “uma resposta provoca cem perguntas”. Por ser um método aberto, não se conclui que o método psicodramático seja caótico e desordenado. Pelo contrário, ele permite acompanhar um mundo em movimento com regras que impedem a cada um uma participação autoritária ou irresponsável (ALMEIDA, 1988:28).

Moreno, ao ler as fantasias de Kierkegaard nas páginas do seu Diário, considerou-o um “psicodramatista frustrado”, mas admirava sua filosofia e compartilhava de suas posições. Reconheceu que o grande êxito do filósofo foi ter sido sincero consigo mesmo, analisando sua própria existência, levando uma vida pessoal de acordo com sua verdade subjetiva. Moreno tencionava com o Psicodrama permitir que as pessoas vivessem em plenitude suas inquietações psicológico-existenciais, de modo a não ficarem estratificadas nas páginas de um diário.

No seu livro “Fundamentos do Psicodrama”, na Sexta Conferência (Moreno, apud ALMEIDA, 1988:44), Moreno demonstra sua clara preferência pelo Existencialismo:

“Ser é algo que não tem fronteiras; não reconhece como limites o crescimento e a morte, os inclui. Se estende no tempo e no espaço e se centraliza nesta pessoa, neste momento e neste aqui. Ser e saber são inseparáveis. Ser, no sentido corrente da palavra, não requer o saber. Mas a recíproca é coisa absurda. Ser, nesse sentido, é precondição do saber. A partir do saber, nunca poderíamos alcançar o ser”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALMEIDA, W.C. “Psicoterapia Aberta – Formas do Encontro”. São Paulo, Ágora, 1988.
ERTHAL, T.C. S. “Terapia Vivencial: uma abordagem existencial em Psicoterapia”. Petrópolis, Vozes, 1989.
DARTIGUES, André. “O que é Fenomenologia?”. Rio de Janeiro, Eldorado, 1973.
GILES, T. R. “História do Existencialismo e da Fenomenologia”. São Paulo, EDUSP, 1975.
BUBER, Martin. “O Eu e o Tu”. São Paulo, Cortez e Moraes, 1977.

Escrito por:

Cybele Ramalho – CRP (19/300), Psicóloga, Psicoterapeuta Junguiana, Psicodramatista e Diretora Técnica da PROFINT – Profissionais Integrados.