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Artigo IV – Para que(m) serve(m) as teorias?

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Este trabalho de livre reflexão é voltado para a importância das teorias no exercício psicoterápico e suas repercussões no papel de psicoterapeuta.

Dirijamos nosso olhar para as práticas das ciências físicas e biológicas. Nestas existe uma sequência em espiral que parte do fato. Dele segue-se uma tentativa de explicação – hipótese – que para ser verificada requer uma nova experiência. A espiral continua. Os resultados desta primeira experiência podem reforçar, negar ou ser indiferentes à hipótese original. Os passos seguintes da espiral estão sempre sugerindo experiências e verificando resultados. À medida que a explicação contida na hipótese é capaz de fazer previsões que se confirmam em novas experiências, passando a incorporar novos fatos, a hipótese passa a ser considerada teoria. Com a teoria o experimentador tem um modelo explicativo-operacional. Com esta teoria ele é capaz de explicar e, ao mesmo tempo, operar com aqueles fatos assim explicados. Quando apareceu o primeiro modelo teórico do átomo – o modelo planetário – foi possível planejar e executar experiências que se converteram em múltiplos aparelhos e instrumentos. Posteriormente, este modelo planetário foi substituído pelo modelo quântico em razão das novas experiências não mais se adequarem ao modelo planetário. Ele não foi considerado errado tanto que produziu aparelhos e instrumentos, mas foi considerado inadequado. O aparelho de raios-X é filho do modelo planetário. O chip já é fruto do modelo quântico. Outro exemplo é a teoria gravitacional e a teoria da relatividade. Para corpos de certo tamanho a teoria da gravidade explica e é operacional. Qualquer pedra caindo em nossa cabeça ou uma balança são partes desta teoria. Para corpos, no entanto, infinitamente maiores ou menores é a teoria da relatividade que é operacional. Elas não se excluem, mas tem áreas de atuação. Até que surja outra teoria – a do campo unificado – que as substitua.

Assim, as teorias nas ciências físicas têm um caráter explicativo-operacional circunstancial. Elas não são certas ou erradas. São modelos de aproximação. Logo que não sejam mais úteis são melhoradas ou substituídas. Têm um caráter dinâmico e sempre confrontadas com a realidade. São uma contínua espiral que passam pelo mesmo ponto a distâncias diferentes, cada vez.

E em nossa área de atuação? Como não somos experimentais, nossas teorias não são indutivas. Elas não partem da parte para o todo. Elas são quase sempre dedutivas. Primeiro se arrumam dentro da cabeça do criador e depois cada fato precisa se ajustar a elas. É o leito de Procusto das Teorias. É como se o tempo não passasse e as mudanças não ocorressem.

A realidade é congelada. Quando falamos de teorias em psicoterapia não falamos em termos operacionais. Falamos de feudos de poder. Uma é sempre verdadeira e as outras são falsas. São sempre mutuamente excludentes. O distanciamento entre as teorias e as práticas, entre o que se escreve e o que se faz, entre o que se diz em conferências e o que se faz numa sala de terapia, é um verdadeiro fosso. A teoria passa a ser o campo “do que faz sentido” e nem sempre ou quase nunca o que apenas faz sentido é verdadeiro. E afinal de contas, o que é verdade em psicoterapia? Nas ciências físicas a verdade é operacional, são modelos operacionais, não é uma entidade absoluta. Será verdade em psicoterapia o que seja operacional para os clientes? “Assim é, se lhe parece”. Será esta uma visão cínica do exercício psicoterápico? Será cínica ou não-diretiva?

Será que as teorias em nossa área não cumprem a função de ansiolíticos profissionais? Eles nos dão um referencial fixo, uma explicação, um “porto seguro”. Não importa que não sirvam para o exercício terapêutico. Não importa que a prática difira da teoria. Elas são úteis para nós, não para os clientes. Como o exercício terapêutico tem em sua origem o sacerdócio, talvez as teorias sejam o dogma necessário a quem exerce este sacerdócio.

Após estas reflexões penso em como deveriam ser as teorias. “Livre pensar é só pensar”. O que podemos extrair de importante dos métodos das ciências físicas? É que a reflexão sobre a realidade (que é a teoria) sempre se retroalimenta da realidade. A questão do certo e errado é ultrapassada pela proposta de modelo, algo essencialmente dinâmico, duradouro apenas enquanto útil. As mudanças ou novidades modificam o modelo até o ponto de propor-se novo modelo. Assim, a teoria é vista com a circunstancialidade de sua utilidade operacional. Transpondo para a nossa realidade psicoterápica que temos? Como trazer isto ao Psicodrama? Como falar de modelo associando-se à espontaneidade? O nosso problema é que o modelo teórico não é operacional. A construção teórica em nosso campo é muito mais uma visão de mundo, uma mirada, uma forma de perceber o mundo. Ao se escolher uma teoria estamos escolhendo, dentre as muitas possibilidades de enxergar, uma e tão somente uma. Por isso ela é não-operacional. Por isso mudar de teoria soa como uma conversão, uma troca de credo. “Ele agora é psicanalista”, “ele agora faz transpessoal”. Isto é igual a “ele frequenta candomblé” ou “ele é crente”. Curiosamente, isto também se dá na psiquiatria biológica. Optar pela psiquiatria biológica é também uma visão de mundo semelhante às múltiplas escolas psicoterápicas. Um psiquiatra clínico fazer formação psicoterápica (com exceção da cognitivo-comportamental) é visto, pelo lado aonde chega como um resgate de uma alma do purgatório e é visto, pelo lado de onde sai, como uma ovelha desgarrada sujeito a um leve abanar de cabeça. Portanto, é toda a área PSI que está sujeita a esta utilização profundamente afetiva e não-racional de construções teóricas. Por quê?

Continuando o livre pensar. Lá atrás afirmamos que as teorias são necessárias para os terapeutas não para os clientes. Somos nós que necessitamos deste terreno seguro, deste apoio dogmático (ou quase). Claro que é possível chamar-se de referência, balizamento, mas penso ser realmente um porto seguro. E por que a necessidade de um porto seguro?

Quando um físico lida com partículas subatômicas e suas experiências confirmam ou negam suas hipóteses, ao voltar para casa, à noite, seu universo pessoal está a sua espera. Acolhedoramente. A visão da realidade pode ser pragmático operacional. Ele tem um porto seguro diferente do seu trabalho. Podem-se incluir aí todas as práticas científicas não-Psi. Em todas, o porto seguro está separado da área de trabalho. Conosco acontece de forma diferente. Nós trabalhamos dentro do porto seguro tornando-o, portanto, inseguro. Quem nos dá um leito para repousar é a teoria. Ela é a nossa certeza dentro da incerteza vivenciada. Trocar-se, assim, de referencial teórico é um risco tão grande quanto saltar no vazio ou realizar uma conversão religiosa. Saímos de algum lugar, mas não temos certeza se chegaremos a outro. É por isto, penso eu, que nos prendemos às teorias tornando-as verdadeiras profissões de fé e, também por isto, que elas se multiplicam e se desdobram em tantas correntes, assim como os credos e seitas.

Para terminar, já que o tema inclui algo de religioso, lembremo-nos de que em todas as religiões, a maioria dos adeptos segue leis e dogmas, mas, sempre, em todas as culturas, há alguns poucos indivíduos, denominados de místicos, que ultrapassam os dogmas e as leis para estabelecerem uma ligação direta com a divindade. Estas pessoas nunca foram, e não são ainda hoje, bem-vindas à grande maioria dogmática. São verdadeiramente excluídos por criarem um ambiente de liberdade em torno de si. Como não dependem da instituição religiosa e criam correntes autônomas são sementes de revolução. Também no exercício psicoterápico há de haver pessoas (quem dera!) com espírito aberto e independente capaz de propor e realizar uma ligação direta com o cliente. Usando mas ultrapassando as teorias. Seu objetivo está focado no cliente e não na probabilidade da validação teórica. Seu centro de interesse é o ser humano com quem está se relacionando, plenamente aberto à mútua exposição. São seres humanos em que um ou alguns estarão, naquele momento e naquele papel, inteiramente diferenciados e outros, naquele momento e naquele papel, em processo de diferenciação. Qualquer que seja a teoria, o que a torna terapêutica é esta relação diferenciado/indiferenciado.
O resto? “O resto é silêncio”.

Bibliografia:

Kuhn, Thomas S. – A Estrutura das Revoluções Científicas, São Paulo, Editora Perspectiva, 2001.

Escrito por:

Antonio Carlos Souza é Psiquiatra Psicodramatista, sempre presente lecionando na PROFINT – Profissionais Integrados.